sábado, setembro 23, 2006





Normalmente eu terceirizo.


“Metafísica é um cego, com olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato preto...que não esta lá”
Paul Valery



Normalmente eu terceirizo. Nunca vi nada de interessante nessa parte do ramo. Essa é uma das poucas vezes em que me encontrei na situação de ter que arrancar eu mesmo as unhas de alguém. Não tive tempo de me organizar direito, então tudo esta sendo feito na minha casa mesmo, na cozinha.

Demoro tempo demais amarrando o rapaz ainda drogado na cadeira. Além de ter que segurar suas mãos moles no lugar, a porcaria da fita adesiva fica dobrando e eu tenho que usar quase metade do rolo. Abro a gaveta perto da pia e escolho cuidadosamente duas facas, as que não uso muito. Me arrependo de ter dado tantos comprimidos pro cara porque queria ver a sua expressão de horror ao ver as facas saindo da gaveta. Admito que eu mesmo sinto um embrulho no estomago ao vê-las em cima da mesa.

Ainda tenho tempo de preparar um café e ligar a televisão por uns dez minutinhos antes de ouvi-lo arrastando a cadeira de um lado para o outro na cozinha. Volto e sento na cadeira ao lado da dele. Instantaneamente me arrependo de ter amarrado o cara na cadeira mais alta. Por alguns segundos não tenho o que dizer. Ajeito o cordão no pescoço. Explico para ele o que ira se passar em seguida. Explico que tudo poderá ser evitado se ele desembuchar o nome do patrão. Faço tudo isso imitando uma das cenas que vi no cinema outro dia.

Eu levanto e pego as duas facas e os outros badulaques que arranjei e disponho todos eles em cima da mesa. Finalmente posso testemunhar a cara de pânico que ele faz ao ver as facas. Não sinto o prazer que achei que sentiria. Ao invés de respeito e medo de mim, sinto que seu horror ignora completamente o torturador, não indo além da faca, do martelo ou do alicate. Isso me enche de raiva. Decido começar pelos olhos.

sexta-feira, setembro 22, 2006





Epígrafes Epi Epígrafes.


"Entendo a dor.

Ah ...! ( milhões de pessoas fizeram agora ao abrir o blog)
Releia o texto do Gregório...pois agora lá vem aquele gordo chato com seus textos enormes
,amanhã vocês vão ter que queimar a mufa para compreender o que que o Texto de Sábado está falando exatamente, e se o Pedro Tomé resolver escrever Domingo, provavelmente você vai achar que está apaixonado por alguém...logo,releia o texto do Gregório,e não se ocupe com todo este resto que vier...

-Este texto é para quem não gosta dos meus textos.
Peço a este caríssimo amigo que entenda que com o pouco que tem na minha cabeça,tenho que me virar e acaba saindo daquela forma mesmo...para mostrar o quanto é difícil...trago a vocês,pequenas mostras do que eu achei lá( na minha cabeça) e peço que tente fazer algo que preste ,com esta exposição de badulaque mental...sei lá, reciclagem...agora,isso se vocês quiserem,pois se não...vá ler o Texto do Gregório que é o melhor que você faz"



-" O google tem mais de 40000900 respostas diferentes para qual o sentido da vida"

-“Não aprendia ler pensamentos,então os escrevo”

-“ Antes de Maomé ir a montanha,ele gritou com ela,esperniou e ofereceu-lhe um suculento pedaço
de vitela...como nem assim ela foi até ele? Nem eu sei.”

- “A física é um estupro de conceitos”

-“Se focinho de porco fosse tomada,feijoada seria muito mais interessante”

-“ Se fossemos maus por natureza,fariamos o bem só de sacanagem”

-“ Um sujeito é a união de diversos predicados”

-“ Rico é impilsivo,pobre é impulsilva”

-Pimenta nos olhos dos outros,é por que não sabem onde fica a boca”

-“ Se eu fosse mais simpático,seria mentiroso... e se me chamardes de mentiroso,aí mesmo é que eu não serei simpático”.

-“A moda agora é ser idiota”

-“ Viver...imitando a imagem do ser feliz”

- “ Falhas na Comunicação
Fa h s a Comu i ã “

-“ Há balas que abalam”

-“Agonisar ainda é viver”

-“ Mundo que vê sem enxergar”

-“ Toda e qualquer forma de certeza,sem sombra de dúvidas é ignorância”

-“ Somos sempre menores do que pensamos”

-“ Vida,por mais que vivamos,só escaparemos dela na morte”

-“ Se as pessoas pudessem,revestiriam seu corpo com espelho”.

-“ Tudo conspira na paranóia”

-“ As bochechas sabem mentir,mas os dentes não”

-“Ignore o típico.
Ignore o novo.
Ignore o desagradável.
...Se ignore.”

- “Tonho e Carla,se mantendo juntos até que a morte os separe”

-“Se eu pudesse voar,faria questão de descer do ônibus em qualquer ponto”

“Não comerás teu próximo,coma a ti mesmo”

-“ Tonho e Carla,separados num divórcio amigavel até que a morte os uma”

-“ A mímica é uma Anarquia corporal”

- “A humanidade busca a evolução para que possa assim voltar a viver nas cavernas”

- “Chupar manga de garfo e faca”

- “ignorância é a mãe de todos os males”

-“ Aprenda piano clássico,Lira, leia mais, se instrua e se torne assim ,um desempregado cult”

-“ A vida é como a mulher amada,te machuca intensa e continuamente e quando ela vai embora...é a morte”

-“Amendoim é um alimento desprezível”

-“ Melhor do que lente do contato é saber usar um óculos”

- “Maquiagem é um autografitismo”

-“ O coração é um órgão que funciona ritmicamente,se fosse melódico talvez a vida fosse mais perene”

-“ Necessita-se de necessidades .( é necessário segundo grau completo)

-“ Arrependimento não mata!! Er...opa...um..quer dizer...dependendo muito do caso...Ah !
Eu sinto que eu não devia ter escrito isso aqui ...er..aaaaaaahg!!”

- “ Existe uma tênue linha entre o bonitinho e o psicótico,veja
Bonitinho / psicótico,viu?”

-‘Não me tome por errado,me tome por desprovido de razão formal”

-“O homem primeiro precisa aprender a aprender”

-“ A realidade deixou há muito tempo de ser Real”

-“Compre uma flor, e entregue a sua dama que vive num palácio de núvens,ela ficará grata e depois...voltará a dormir”

-“Bebo a realidade e suo sonhos”

- “Se gripe fosse doença,não se pegava ...se contraia”

-“ Problema de camelo é fome”

-" Não falei para ler o texto do Gregório..."

quarta-feira, setembro 20, 2006



Badulaques

ou
3 microcenas de dupla
ou
(pausa) Precisa gritar?

1.
- Amor, a gente tem que conversar.
- Também acho.
- Então, eu to muito chateada com você.
- Desculpa. Foi sem querer.
- Então você sabe do que eu to falando?
- Sei, claro que sei. Foi mal. Mas eu tava precisando de dinheiro. E aqueles 10 reais ali, na sua carteira, me chamando, sabe como é que é...
- Você roubou 10 reais da minha carteira?
- Ué, não era disso que você tava falando?
- Não, não, na verdade disso eu nem..
- Ai meu deus.
- O que?
- Ai meu deus. Já sei o que é.
- O que?!
- É o negócio com a Carmen, né? Porra, mas você conhece a Carmen, você sabe como ela é atirada, quando eu vi ela tava em cima de mim, me beijando...
- Não! Não era disso que eu tava falando! Disso eu nem sabia até você...
- Ih..
- Ih.. o que?
- Foi o lance com a sua irmã?
- Que lance com a minha irmã?
- Porra, você conhece sua irmã, meu amor, ela é muito atirada, quando eu vi ela tava em cima de mim e....
- Não! Eu não quero mais ouvir, não tinha nada a ver com isso!
- Porra, que que foi então? Ihh tem a ver com sua mãe! Ou com a morte do seu pai? O estupro de seu cachorro! Foi mal, é verdade, eu viajei, mas ele é muito atirado, quando eu vi ele tava em cima de mim e...
- (aos prantos) Não! Não! Eu só ia pedir pra você levantar a tampa da privada quando fosse fazer xixi! Só isso! Só isso!
- (pausa) Precisa gritar?


2.
- Olha nos meus olhos e diz que me ama.
- Eu te amo.
- Não, olha pra mim.
- Como?
- Olha para mim.
- Assim?
- Não. Pra mim.
- Ah ta. Assim.
- Nos meus olhos.
- Pronto?
- Não. Nos meus olhos.
- Amor, eu sou vesgo.
- Sempre foi?
- Sempre.
- (pausa) Tá, então só diz que me ama


3.
- Posso te pedir uma coisa?
- Pode.
- Não me chama de meu bem.
- Porque?
- Não gosto. Me sinto velha. Parece que a gente casou.
- Mas a gente casou.
- É verdade. Mas e daí? Não gosto.
- Tá bom, meu amor.
- Também não é bom.
- O que?
- Meu amor.
- Porque?
- Sei lá, meio falso.
- Como?
- É, eu duvido que você pense que me ama a cada vez que diz meu amor. Então é falso, sabe? Não fica orgânico.
- Sei. Desculpa, Fátima.
- Ai, não, Fátima, não!
- Mas é seu nome!
- Eu sei, mas não gosto.
- De quê que eu posso te chamar então?
- Sei lá. Constanza, por exemplo. É bom.

terça-feira, setembro 19, 2006



SOBRE "A MULHER"


Ela trata cada um como se fosse um badulaque
Coloca-os quando quer
Organiza-os ao seu bel prazer
E eles aceitam
Porque sabem a honra que é ser
Usado por uma fêmea daquelas





OBS: ESTOU SEM INTERNET FAZEM ALGUMA SEMANAS E ASSIM JUSTIFICO MINHA AUSÊNCIA, MAS DOU A MINHA PALAVRA QUE QUANDO TUDO VOLTAR AO NORMAL EU REFORMULAREI OS DOIS BLOGS

ATÉ


Cuidado com as promessas...
Eu, que prometi escrever periodicamente, deixei de escrever duas semanas...


Duas horas em um minuto

Em conversa com uma grande amiga que vive uma turbulenta fase de (des)amor, que se acostumou a mentir e a manipular involuntariamente as pessoas,os amantes, e percebeu a fragilidade das relações humanas - inclusive a relação dela consigo mesma - nos deparamos com a aterna questão: a sinceridade.

Li uma vez a psiquiatra Nise da Silveira falando do Jung, comentando seus conceitos. Dizia que todo ser tem um lado que vive na obscuridade e que precisa ser tomado de luz, de consciência. Esse lado obscuro seria sua "sombra": o desconhecido que precisa vir à tona.

O dilema era: falar ou não falar verdade? Sinceridade!

Após conversar com seu psicólogo, minha amiga dizia todo o ser tem que ter algo que é só seu, que não pode ser revelado à ninguém.

- Mas assim justificas a mentira... Ora, o desconhecido do Jung não é mentira, a "sombra" é o inconsciente, e que precisa ser revelado. Não é saber e omitir, calar. É levantar a cabeça e seguir em frente.

Acho eu que a vida, como desenvolvimento das potencialidades humanas, não deve permitir a falta de sinceridade. Por mais que ainda resista em falar o que sinto, o que quero - e executar - quero ser coerente com as minhas falas, meus pensamentos e minhas ações. Caso contrário, o que terá sido para mim o viver se não um campo onde passei e plantei a miséria humana, badulaques destrutivos que nos impedes de sermos seres coerentes?

segunda-feira, setembro 18, 2006

Copacabana - Central

Não nevava.

A bochecha dela tremia enquanto o ônibus saculejava, e eu não conseguia parar de olhar. Ela nem percebeu... Ficava falando ao celular: a boca se movendo enquanto meu suor pingava no chão.
Meus olhos, provavelmente semi-cerrados, se bastavam em olhar para a menina das bochechas trêmulas. Ela era bonita, tinha o cabelo comprido e a julgar pelos seus sapatos, falava alemão. Ou francês, quem sabe?
Os bracinhos pequenos, branquíssimos, agarrando-se às suspensas extensões de aço no teto do ônibus. O quadril em uma angulação estranha. Um pé pra dentro. O outro pra fora.

Uma senhora idosa dormia de boca aberta, no banco ao lado da menina da bochecha, que estava de pé. A velha parecia morta... Balançando a bochecha idosa. Escancarando a boca antiga cheia de obturações. Estava em rumo, seu rumo sem rumo.

A menina desligou o celular. Olhou para a janela e permaneceu assim por muitos minutos. A bochecha continuava a tremer. Seus olhos pareciam tristes mas isso deve ter sido alguma poesia do acaso.Ela tinha a boca perfeita. Pensei em abordá-la, "ei, menina, quero te dar uma informação que não vai mudar em nada sua vida e nem sequer é realmente importante: sua boca é bonita"... Claro, não daria certo por eu não saber o que é dar certo.
Pude perceber que ela carregava duas bolsas. Dei-me a criar histórias... Badulaque. Não. Ovo de codorna... Menina desconcentra. Talvez ela estivesse carregando a bolsa de uma amiga. Ou talvez, pra ser linda daquele jeito, devesse mesmo carregar segredos em duas bolsas. Uma não seria o bastante. É justo.

A senhora continuava morta. Não há ninguém que vá me fazer acreditar que não estava morta e começaria a feder em breve.

Ela desceu do ônibus com a bochecha estática. Eu abri bem os olhos, com o rosto colado no ante-braço, me deu vontade de gritar qualquer coisa, mas uma gota de suor entrou em meu olho. Foi horrível. Pude ver o rastro das duas bolsas chacoalhando e um pedaço do cabelo da menina pela janela. Foi só. A menina deve ter descido perto da casa de sua amiga, pra entregar a bolsa e falar sobre a faculdade, ou sobre garotos que não suam tanto, ou quem sabe sobre um menino feio, de cabelo desarrumado, que não parava de olhar pra ela no ônibus. Vai saber.

A senhora continuou morta e eu cheguei no meu ponto, abandonando-a com o sentimento de que somente eu, em meio aquele ônibus lotado, tinha me dado conta da morte de uma velhinha de vestido florido. A tal velha deve mesmo ter chegado no ponto final, morta, com uma mosca saindo da orelha.



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