sábado, setembro 16, 2006




Quebrou o silêncio o tarol que anunciava o início do velório. Percebo que todos os meu choram e eu não. Tento. Não consigo. Me sinto aliviado. Só isso.

Desde a semana que passou tenho percebido não estar em sintonia com as pessoas. Mesmo quando abraço a minha mãe, sinto que não a abraço de verdade. Mesmo quando... mesmo quando esse tarol atrapalha meu raciocínio. Enfim, não sinto que faço parte desse ambiente.

Me bate repentinamente um frio, a pesar de eu ver claramente o sol forte bater no rosto de todos.

...engraçado, tenho a impressão que é esse tarol que entristece tanto a todos. Cria uma bruma que permeia e aperta o coração de cada um. Eu não, eu sinto frio. Só isso.

No exato ponto em que eu não tinha mais nada pra pensar e começava e me deixar levar pela melancolia, uma sensação nauseabunda me tomou. Percebi cores que antes ignorava. Vi o interior de cada pessoa a minha volta. O tarol passou a ser apenas um som distante e abafado.

E com toda a calma e serenidade, que nunca me couberam, percebi que esse era o meu velório. Velado era eu, caído num caixão como nunca quis estar. A uma semana não houve amanhã.

A cor e o som me tomavam cada vez mais, deixando de lado a existência daquelas pessoas que choravam. Embora com os pés no chão, sentia flutuar e a vermelhidão do céu não me era estranha. Senti as partes do meu corpo se dissipando em flores. Lindos jardins nasceram de meus braços e pernas. Minha face foi deixando se ser até transformar-se numa rosa. Branca. Ao pé de uma jardineira.

Todo meu ser em luz radiava por entre minha gente, deixando um pedaço de mim em cada um que eu amei.

...

...

...

Vazio. Acho que agora, não sou mais...





tarol.



Estou esperando o vôo da conexão que sai em uma hora. Compro um sonho e um café com leite e fico parado perto do portão de embarque.
Na minha frente passam um professor meu de quando freqüentava a universidade e a sua esposa. Está mais careca, mas tenho certeza se tratar dele. Ele, por sua vez, não me reconhece e senta duas fileiras atrás de onde estou. Penso na ironia de encontrar com ele num aeroporto eqüidistantemente perdido.
Acabo o sonho e vou jogar o guardanapo fora. A lata do lixo esta do lado do professor. Trocamos um dialogo entrecortado e ridículo sobre conversão de moedas e a possibilidade de comprar produtos do dutyfree no exterior pelo mesmo preço de comprar na chegada. Engasgo com o café. Ele sua frio.
Uma voz chama nos alto falantes e eu vou para a fila de embarque desfilando ao som da bateria da mangueira.

quinta-feira, setembro 14, 2006




Verde.




Sem dúvidas,era o mais correto de todos ao abrir o guarda chuva na Voluntários da Pátria, para conservar a impermeabilidade conseguida graças ao metrô,mas naquele simplório gesto ,algo mais estava implícito...

Pecava quem o dizia frio só por fazer o que fazia.
Era fã de Mahler ao mesmo tempo que admirava programas de baixo nível na televisão, neles via uma arte sincera e uma doçura improposital.
Quanto as balas de leite...digamos que era apenas necessidade.
Passava mais tempo pelos metrôs do que em casa, aliás no metrô que ele conheceu a música de Mahler,no dia em que fez sua primeira vítima em botafogo e tomou gosto pelo afazer...
Não adianta puxar na memória alguma informação sobre o estado de uma vítima de alguém perto do metrô...pois se você ao menos ouviu falar no primeiro incidente causado por Dimitri, nunca na vida que iria precisar se esforçar para se recordar o fato, pois ele não ia sair de sua cabeça um só minuto pro resto de sua existência.
...Dimitri era filho dos dias chuvosos, e costumava trabalhar com este seu pai sinistro que perdia neste adjetivo já pra sombra manca e curvada para a esquerda de Dimitri...
Nos dias que Dimitri esta nas ruas,os bem-te-vis nunca estão...
Perdido na multidão, Dimitri é só mais uma face e por que não haveria de ser?

Sobrancelhas coladas uma na outra, respiração pesada e sempre que desse , um cigarro entre os dedos, muito mais tempo entre os dedos do que tempo entre os lábios.
Falava sómente quando necessário, e curiosamente sua fala era crucial para o seu serviço.

Entretanto, ainda para muitos é mistério como Dimitri começou nesta sua sinistra ocupação, e para outros é apenas lenda...daquelas que se duvida,sacode os ombros e segue a vida para sempre sem nunca lembrar da existência até que a noite caia reacordando a memória e fazendo o indivíduo respeitar a lenda com todo o fervor.

A origem destes, hábitos sorrateiros de Dimitri obviamente não é uma ocasião feliz.

No início do ano passado, Dimitri havia se casado com uma meigura cintilante, se chamava Pamela e tinha olhar bonito feito o de criança, abraço gostoso como o de mãe, voz afável como uma enorme poltrona de tecido muito bom.
Pamela era a mais bela menina na época do colégio, e nunca foram mais longe do que os tradicionais cumprimentos informais.
...Até o passar dos anos, as voltas estranhas do destino e uma terça feira ,anos depois de adultos em que se trombaram em uma cafeteria e conversaram tão alto que resolveram namorar por uns tempos ,o que culminou no casamento.
Neste ano, Dimitri estava sem um emprego propriamente, apenas ajudava uma tia em sua padaria na Lapa, na parte da manhã, e pela tarde ele ia buscar Pamela no serviço e ela sempre lhe comprava balas de leite.
Numa destas tardes, Dimitri resolve chegar mais cedo, para surpreender Pamela.
E a surpresa maior foi pra Dimitri.

Sol ardendo sem dó, Pamela belíssima como já era,porém exaltada pelo verde de seu vestido que abraçava seu corpo como fazendo carinho na sutil pele morena da meiga.
Ao vê-la, Dimitri sorriu e foi ao seu encontro.
O que sentia com o abraço da menina,é que não merecia aquilo...era arrojo demais para alguém como ele os carinhos daquela menina, que ficava tão linda de verde, um verde tão verde que é livre de comparações, o Sol ainda a pino...esse nunca desiste.
O cabelo de Pamela se balança feito bossa nova e a jovem anda ao encontro de Dimitri, com seu belo e tênue nariz apontando para o desajeitado sujeito que através de seus olhos vê a mais bela das morenas contorcendo a face como quem chupa limão e lançando seu corpo perfeito ao chão num baque violento que arrancou-lhe dois dentes , um de cima e um de baixo democraticamente.

Uma bala ardia nas costas de Pamela, dando um vermelho ao vestido verde que aumentava de volume com constancia macabra.
Os que estavam ali ouviram o som do bumbo do demônio estourando, o que acabou acordando o tarol da revolta dentro de Dimitri, que com olhos mareados sente uma dor e um arrepio estranho daqueles quando se está com o corpo muito frio, e vem da verdade um calor súbito que eriça os pêlos.
Agaicha-se da maneira mais desajeitada que pode encontrar, e pensa em abraçar o corpo da menina que falesce olhando para ele com os olhos de criança até transbordado com as lágrimas de quem acaba de nascer...enquanto que o olhar de Dimitri apenas responde com as lágrimas de quem acaba de nascer, crescer, se reproduzir e morrer...o Sol aos poucos vai desistindo, pessoas se aglomeram...Pamela fecha seus olhos, Dimitri fica cego.

Começa a chover, chamada chuva de verão.

Mas em uma das esquinas da Voluntários da Pátria, bem perto do Estação Botafogo, ele avista um
Rapaz correndo, Dimitri faz a força de 347 homens para se levantar...quando tem a impressão de ter visto Pamela abrindo os olhos.
Imediatamente, olha para ela e perde o assassino de vista...apenas consegue se recordar de um fator...o uniforme, o assassino usava o uniforme dos vendedores de cartão C & A.

Dimitri passa o resto da semana recluso, até que resolve fazer justiça.
Vai até botafogo, a chuva lambe a todos.
Dimitri abre seu guarda chuva, bem perto de uma corja de vendedores de cartão C&A e espera que algum deles venha lhe prestar utilidade,talvez por habilidade do anjo da guarda deles, nenhum foi até Dimitri, então ele sem nem ao menos respirar resolveu chamar um...

-Ei ,cartão C&A?

Sendo muito provavelmente a única pessoa no mundo que já requisitou os serviços desta gente, Dimitri foi olhado com estranhamento por algumas pessoas que andavam correndo com pastas na cabeça.
Gentilmente, o sinistro homem abre o guarda chuva e exibe um enorme sorriso para o vendedor.
Que não faz finta e vai de encontro ao destino ali bem perto do metrô.
Na cabeça de Dimitri ,alguns dos nobres acordes de “I’ve lost the track of the world” do Mahler que ele tinha acabado de ouvir no metrô( onde mais se ouve Mahler?).
Dimitri leva o franzino rapaz que tinha o cabelo toscamente pintado de amarelo, mesmo sendo negro e o lança na parede e pergunta:

-Por que mataram Pamela?!

O rapaz de início não fazia idéia de quem era Pamela, então Dimitri precisou detalharbem entre um murro e outro.
Ele disse que como ela tinha sido a milhonésima pessoa a recusar os serviços deles, numa rua onde passam uma média de um milhão de pessoas por dia, eles apenas estavam seguindo uma espécie de professia que diz que este indivíduo, que completasse esta marca,teria que viver a próxima vida como alguém que necessita demais do cartão C&A, ou seja ,a pessoa que eles mais gostariam de encontrar.

Não sei bem, se a esperança do garoto incluia sentasatez da parte de Dimitri, oque obviamente estava longe de acontecer...
Ao ouvir isto, Dimitri não pensou novamente e meteu a mão no bolso em busca de qualquer coisa que pudesse ferir aquele verme, quando encontrou apenas suas balas de leite, e então Dimitri enfiou as balas na boca do sujeito até que ele se asfixiasse intopindo sua garganta com elas ,e faz isto até hoje, com diferentes vendedores de cartão C&A,tendo até já matado o assassino, mas não parado desde então.

Alguns vendedores de cartão C&A, dizem que é apenas uma lenda urbana, já outros certamente acreditam,mas por via das dúvidas nenhum deles deixa que você o chame e sim vai direto a você antes que você pense nisso...pois segundo eles, a única pessoa que já requisitou o trabalho deles foi o homem do guarda chuva.

Fim.

quarta-feira, setembro 13, 2006



– para ana c. ou caio f. ou alice s. –


(cansado de ouvir os mesmos acordes dissonantes
repetidos ad eternum) saio pela rua da constituição
dancing in the dark uma melodia inexistente;
tropeço em mendigos, fios e meio-fios de uma
praça tiradentes demais; caio de cara na lua
refletida numa poça rala; ergo-me claudicante
no negrume dessa noite-breu e deito meu corpo
vertical sobre um poste diagonal demais
esperando all night long um ônibus que
tá na cara que não vai passar que tá na cara
que não vai passar que tá na cara que não vai passar que
passou, filho da puta, rápido demais
pra minha retina cansada dessa rotina
de steinhaeger com cerveja.

+

(palíndromo-nonsense:
ator, o tarol o rato rota)

domingo, setembro 10, 2006



...quero antes de qualquer... coisa... me deculpar pela ausência de postagens... posto que não postei... nas últimas semanas... houve uma divergência de idéias entre a minha senha e meu login... mas águas passadas já pasaram e não passarão mais... nunca mais... sempre.


Batacotô

O processo criativo se embasa nos alicerces da vida, mas há uma pergunta que não concente, portanto não cala: Qual estilo de linguagem deve ser adotado, referencial ou poético?

Deglutido da cama por bruscos movimentos, despertei com a certeza de que “hoje” conheceria a mulher da minha vida e a consciência deixou-me reparar que seu nome seria Valeuska. Que coisa horrível! Ainda tenho dificuldade de entender de onde surgem as coisas e para onde elas caminham, inclusive eu. Sinto vontade de escrachar tudo que faço, por exemplo, meu Tatu tem 42 anos e ainda anda de ônibus. Apesar de não aparentar, a realidade paralela existe.

Com medo de me perder na volúpia de novos acontecimentos, resolvi voltar ao cotidiano e comecei meu dia da melhor forma possível, uma bela cagada. A última pingada me fez lembrar a profunda afeição que nutro pelo terno cinza-pinguelo que vovô Osório me deu de aniversário e imbuído desse nobre sentimento, escolhi minha calça laranja. Ao pentear o cabelo e escovar os dentes, notei que meu tatu já lia o jornal na cozinha.

Distraído em pensamentos, quase me cortei com a navalha ao fazer a barba, deu vontade de deixar meu tatu tomar café junto comigo. Ah, que besteira, vou pra cozinha.

- E aí? Alguma novidade no jornal?

- Não, nada demais, tudo como sempre esteve.

- Preparou as Alfombras ao leite?

- Não prefere ovo?

- Senta aqui comigo e vamos tomar café – Esse convite provocou nele um espanto extraordinário.

- Ora, mas por essa eu não esperava, depois de 42 anos de uma vida totalmente dedicada ao seu lado e por esses anos todos longe da minha mãe e do meu pai, você pela primeira vez me convida para desjejuar. Que espírito generoso.

- Hepudih, porque ovo, você não foi pegar as alfombras?

- Você já parou pra pensar que eu já tenho 42 anos, dou aula de sociologia na UFF, ganho três mil reais por mês, mais que qualquer jornalista, e ainda tenho de ir à faculdade de ônibus, pois não deixas que eu tenha um carro?

- Deixa de ser mal agradecido, eu estou te mimando demais menino! Se continuar assim, vou cortar o dinheiro do ônibus de volta, vai ter que voltar andando pra casa!

- Ah, então deixa pelo menos eu trazer a Luiza aqui pra assistirmos a um filme.

- Não, você sabe que eu não gosto de sapos, eles não são confiáveis.

- Por favor!

- Não...

E disso se aprende... as alamedas da vida se estão para com os outros como a vida está pra todos os meus eus... os de dentro e os de fora. Com o consentimento e a força das estruturações altivas do saber.



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