sexta-feira, junho 16, 2006





A anti –jaula (ou l’anti-joule ou lantejoula)

1

da primeira vez eu fui porque ninguém mais iria. deixei renata no ponto de ônibus depois do cinema e liguei pra miranda do telefone público do lado de fora do shopping. oi quem é ela disse – sou eu gabriel eu disse – tudo bem ela disse – tudo legal eu disse – silêncio – tem problema se eu passar aí agora eu disse – agora ela disse – é agora eu disse – meu ajudante não esta aqui agora como você vai entrar ela disse – me joga a chave que eu subo eu disse. desliguei o telefone e peguei um táxi.

miranda jogou a chave e eu subi. sentei no sofá e nós conversamos sobre tarifa de ônibus e filmes do tom cruise. horrorizado pela forma daquelas pernas, penduradas da cadeira de rodas, tudo o que consegui fazer foi dar uns beijos e por a mão nos peitos dela. evitei que ela se esticasse da cadeira e tentasse me tocar uma punheta.

não está tarde pra você ela disse – está eu disse.

sentado na calçada esperando um radio-táxi, me senti um idiota por não ter desabotoado a blusa dela pelo menos. o poste de luz começou com um barulho abafado e grave e eu não conseguia parar de pensar nos seus joelhos.

2

renata viajou pra teresópolis na quinta.

cheguei as sete e meia e júnior (ou júlio), o ajudante dela, abriu a porta. me sentei no sofá e fiquei sozinho na sala por algum tempo. depois ouvi o júnior (ou júlio) se despedindo de miranda na cozinha e vindo até a porta. té mais ele disse – até eu disse – desculpa teu nome qual é mesmo ele disse – gabriel eu disse – té mais gabriel ele disse. o elevador desceu num estrondo terrível. pensei em uma boca enorme, um monstro engolidor de gente.

miranda veio falando alguma coisa da televisão e eu reparei que seu vestido era muito longo, cobrindo as pernas e os pés. cheguei perto dela e fiz carinho no seu cabelo. ela olhou pra cima – por um momento examinei seu rosto rochoso e estrangeiro, antes de sentir suas mãos esfregando o meu pau por cima da calça e desviar o olhar.

eu não sabia o que fazer: não agüentava vê-la me olhando nos olhos enquanto me masturbava. segurei então o seu cabelo e coloquei meu pau na sua boca. comecei a empurrá-lo para dentro com violência – minhas bolas chacoalhando como lantejoulas em fantasia de carnaval. miranda fechara os olhos e se segurava firmemente na cadeira. cansado, soltei seu cabelo e passei a mexer a cadeira de rodas pra frente e pra trás. gozei na sua roupa.

me limpei com uma almofada velha cheirando a naftalina. miranda foi ao banheiro e quando voltou eu não estava mais lá.

3

domingo dia de jogo do flamengo, fiquei em casa com renata vendo tv. as janelas sufocadas entre o ar condicionado e o bafo quente do lado de fora. estávamos transando no sofá e eu segurava uma das pernas dela pra cima – renata começou a gritar e eu demorei a entender que tinha enfiado as unhas na sua coxa. pensando agora com mais calma, acho que não estava tentando chegar nos ossos da renata, mas nos galhos secos que são as pernas da miranda.

o flamengo perdeu e fomos dormir cedo. não lembro o que sonhei.

4

encontrei com júnior (ou júlio) no zona sul. trocamos olhares, mas acho que ele não me reconheceu. saí do mercado e liguei pra miranda. nada. atravessei a rua e parei um táxi. beleza eu disse – beleza – ele disse – vou na lineu de paula machado eu disse – tá certo ele disse.

encostei os olhos na cabeça como a cabeça na janela do táxi. o vidro ainda molhado de chuva sendo lambido pela velocidade do carro que varava o corte do cantagalo. pensei em como queria vê-la nua na cama, seu corpo sem proporção distorcido sobre os lençóis. não conseguia imaginar suas pernas subindo e dando lugar a sua buceta. quanto mais eu forçava esse pensamento, tentando prever o encontro perverso dessas duas linhas num ponto futuro, mais confundia meu desejo com ânsia de vômito. aqui tá bom eu disse.

peguei a chave atrás da caixa do correio e subi. ela não estava na sala nem na cozinha. miranda eu disse – ninguém respondeu. fui até o quarto e a encontrei na cama dormindo. o lençol cobria o seu corpo, deixando só a cabeça de fora. puxei o lençol com mais medo do que cuidado e me afastei da cama: nua ela parecia ainda mais grotesca, mais real. eu não conseguia fechar os olhos, mas também não tinha coragem olhar pra ela diretamente. pelo canto dos olhos, eu via aquela massa disforme pulsar na penumbra do quarto. tentei ficar mais enojado com a minha própria repulsa do que com o que via. ainda muito tonto, ajoelhei e a cobri de novo com o lençol.

mas, quando encostei no seu corpo, percebi que miranda estava gelada. estava morta. tirei o lençol de novo e vi a marca das mãos no seu pescoço. havia sido estrangulada. comecei a chorar desesperadamente – não por vê-la morta, mas por ver que as marcas da agressão eram iguais as que seu corpo sempre carregara, já estava tudo escrito naquele corpo torcido e inacabado.

ouvi tocar a campainha da rua e fui até a janela ver quem era. renata. saí da frente da janela e me apoiei contra a parede. se ela visse miranda morta ia achar que fui eu. me lembrei do rosto do ajudante quando nos encontramos no mercado e tive a intuição de que ele estava envolvido. a campainha soltou mais um grito insistente. se renata subisse e visse o monstro sufocado na cama ia chamar a policia. febril, pensei que tudo o que precisaria fazer era contar pra policia que o assassino era o júnior. ou seria júlio.


A Grande festa


A lua parecia mais uma explosão , Viana parecia mais uma explosão por si só...
Aparentemente, não tinha corpo, o enorme resto de carne que tinha pendurado em sua alma era realmente temente á gravidade e a cada vez mais, podia sentir e queria não fazê-lo.
Não estava exausto... era exausto já a um longo tempo, sua coluna se envergava, contorcia e ás vezes dava chicotadas em suas costas tentando motivá-lo a trabalhar.
Estava em seu primeiro ano ali, e não estava gostando.
O escritório parecia muito pequeno, e realmente era.
Viana só gostava como se fosse sonho, da hora em que voltava para casa, e aquela era uma daquelas horas, podia voltar para casa agora sob aquela lua explodida.
Pegou seus pertences, colocou numa mochila velha e lançou em suas costas,que doiam.
Todas as pessoas respeitáveis daquela empresa respeitável usavam maletas, Viana apesar de ser respeitável , preferia usar sua mochila verde e ser coringa.
Admirava a noite desde os tempos de jovem onde a mesma simbolizava liberdade.
Mas já hoje não, hoje ela simbolizava liberdade!
O ônibus tremia, como desafiando suas vertebras a não estalarem, mas a vontade delas era tamanha, que não haveria trem que as fizesse desistir de se realizar numa trectrecagem emudecida pelas rajadas de velocidade que o ônibus lançava na noite.
No ônibus, já não havia ninguém, a não ser um sujeito estranho no banco de trás de Viana.
O vento da madrugada, parecia gostoso e seus olhos semi-cerravam por causa dele e das pueiras que as ruas do centro da cidade do Rio de janeiro pareciam conservar com esmero desde o período regencial.
Uma curva, e o sujeito estranho de trás dele se levanta, como que para mostrar que não era tão estranho assim, e o prova com sucesso era só um cara normal , tinha vitiligo e estava torto devido a curva brusca que o ônibus acabara de executar, apesar de normal, não devia ser um cara lá muito inteligente pra se levantar numa curva daquelas.
O ônibus vai diminuindo a velocidade e a noite fica mais quieta, uns mendigos dormem sonhando em se tornarem bêbados, e alguns bêbados gritam um pouco antes de dormirem nas calçadas, se transformando em mendigos que realizaram seus sonhos.
O sujeito estranho desceu do ônibus , que segue agora apenas com Viana e o motorista, era um daqueles ônibus pequenos que não usam cobradores.
Aos poucos, Viana ia percebendo seu apartamento correndo em sua direção, levantou-se e puxou a corda , o coração do motorista devia ter apertado um pouco de solidão e abandono, mas não demonstrou isso e com excesso de profissionalismo, abriu a porta e foi um adeus.
Assim que Viana aterrissou, percebeu o quanto que a gravidade pesava , se se arrastar fosse algo saudável e comum, Viana se arrastaria, pois sempre fora um cara saudável e comum.
Abriu a porta , fechou e foi para seu quarto, deitou-se na cama e sumiu.
Sonhou com algo colorido que parecia lantejoula.


( Pretendendo agradar ao leitor, peço que sugiram um final ao seu critério)

quarta-feira, junho 14, 2006


Quando ele acordou, já era tarde: estava em uma calçada da Lapa abraçado com um cachorro. Não, aquele não era o seu cachorro. Era um cachorro qualquer, um vira-lata fedorento que ele nunca havia visto antes. Soltou-o aos poucos para não acorda-lo. Foi aí que ele percebeu que em suas mãos, cheias de purpurina, havia um revólver. Assustado, tentou se levantar. Mas sua cabeça pesava toneladas. Cambaleou, pisou numa poça, quase caiu, andou três passos e só aí notou que estava de salto alto. Foi subindo os olhos pelas suas próprias pernas e logo identificou o seu traje como um vestido de lantejoulas, sem nada por baixo. Perplexo, levou as mãos ao rosto e ao encosta-las na própria face percebeu que sangrava nas bochechas e no nariz. Subindo um pouco mais a mão para os cabelos apalpou-os e logo se deu conta de que era uma peruca que ele estava usando, da pior qualidade. Começou então a vasculhar sua memória na esperança de que encontrasse algo que justificasse seu estado. Mas não se lembrava de nada. Quer dizer, de uma coisa ele se lembrou: Jonas. Esse era o nome do cachorro. Voltou a sentar no chão e disse a ele:

- Jonas, agora você é meu único amigo. Nunca me deixe na mão, tá?

Ao que Jonas consentiu. E foram felizes para sempre. Ou quase.

terça-feira, junho 13, 2006




SOBRE OUTRA COISA QUE NÃO SEJA...

No início, assim como a pangéia, era tudo uma coisa só. Inteira, sólida e única até ser colocada num caminho e chegar a prensa esmagadora onde se desfazer-se-ia em mais de mil de si própria, todas idênticas, bordas simétricas e pequenos furos centrais. As que tentaram ser um pouco mais criativas e se abaularam ou optaram pela não utilização do furo, foram descartadas totalmente da turba de gêmeas que agora era despejada num separador que ejetava quase sempre a mesma quantidade dos pequenos seres em sacos plático.
Na separação, a sorte fala mais alto, algumas ornam grandes estandartes e acontecimentos glamurosos, enquanto outras apenas figuram em trabalhos de menor exposição ou qualidade, fazendo assim, nada mais que a sua obrigação.
Com o tempo, as velhas vão sendo substituidas, muitas perdem o brilho e outras se quebram, mas a fábrica não para e por isso sempre haverá milhões e milhões para substituir o espaço aberto.
Lantejoulas são tão pequenas que não me inspiram assuntos, por isso que as deixei de lado e falei sobre opiniões.

domingo, junho 11, 2006



Só mais um mameluco.

O trânsito é nervoso no centro da cidade. Naquela esquina o estresse engloba todo o ser social do guarda de esquina, e este já nem sabe por que tanto apita. Os xingamentos já não se ouvem mais. O calor suga o raciocínio e uma trincheira tem clima mais calmo.

Sereno em meio a este inferno está um mendigo. Um molambo, apreciando a benção que é a luz do sol. Tem como sua casa um pequeno espaço de grama no largo da carioca, mas por agora, por razão de posição solar, deita na rio branco.

Fome, nem sente mais. Medo, de que? Raiva, já teve. Cansou. Hoje lhe resta um sentimento de posse por pequenas coisas. Seu objetos, seu espaço na grama, seu carrinho de compras. Suas posses. Preservá-las é seu único objetivo de vida.

Aquele dia, tão somente para ele haveria de ser calmo. Bonito como todos os outros. Nada o afligia, seus negócios iam bem, sua vista era bela. Mas não o foi. Ao tempo em que apreciava de longe sua morada calma sentada ao canto do largo, repara num outro mendigo que se aproxima e deita-se na sua cama, ascende sua luzinha, liga seu ar-condicionado e pega um de seus livros para ler. Grita como nunca gritou antes e corre. Em falta de sorte, por olhar fixamente para o homem que dorme em sua grama, esbarra atropelando uma senhora que, antes mesmo de tocar o chão, o xinga esbravejante. Um jovem, porém nervoso executivo aproxima-se em voz de intimidar o maltrapilho que nem o nota, envolto em sua própria ira. Por sua vez, o policial parte para especular, esquecendo até mesmo de apitar fechando o sinal.

As pessoas gritam, batem, seguram, os carros buzinam, mas ele nem sabe. Olha fixamente para o invasor enquanto pensa como fará para destruir o inimigo.

O calor parece ter triplicado. Já não se ouve a própria voz. A triste senhora sangra pela canela. Há pessoas que não sabem mais porque estão gritando com o pobre mendigo. Ele, nem sabe. Um estalo dá-se em sua cabeça, vê uma pequena brecha entre as pessoas que, nem sabe porque, o rondam. Pensar, calcular, pra quê? Corre. Desvencilha seu corpo sujo das mão enojadas que o reprimem e corre. Sente beijar o asfalto. Uma ardência nas costas. Morre.

Havia sido atropelado o pobre. O motorista conversa com o guarda para não ser processado pela prefeitura. Desnecessário, ele não terá problemas.

Era só mais um mameluco.


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