
A anti –jaula (ou l’anti-joule ou lantejoula)
1
da primeira vez eu fui porque ninguém mais iria. deixei renata no ponto de ônibus depois do cinema e liguei pra miranda do telefone público do lado de fora do shopping. oi quem é ela disse – sou eu gabriel eu disse – tudo bem ela disse – tudo legal eu disse – silêncio – tem problema se eu passar aí agora eu disse – agora ela disse – é agora eu disse – meu ajudante não esta aqui agora como você vai entrar ela disse – me joga a chave que eu subo eu disse. desliguei o telefone e peguei um táxi.
miranda jogou a chave e eu subi. sentei no sofá e nós conversamos sobre tarifa de ônibus e filmes do tom cruise. horrorizado pela forma daquelas pernas, penduradas da cadeira de rodas, tudo o que consegui fazer foi dar uns beijos e por a mão nos peitos dela. evitei que ela se esticasse da cadeira e tentasse me tocar uma punheta.
não está tarde pra você ela disse – está eu disse.
sentado na calçada esperando um radio-táxi, me senti um idiota por não ter desabotoado a blusa dela pelo menos. o poste de luz começou com um barulho abafado e grave e eu não conseguia parar de pensar nos seus joelhos.
2
renata viajou pra teresópolis na quinta.
cheguei as sete e meia e júnior (ou júlio), o ajudante dela, abriu a porta. me sentei no sofá e fiquei sozinho na sala por algum tempo. depois ouvi o júnior (ou júlio) se despedindo de miranda na cozinha e vindo até a porta. té mais ele disse – até eu disse – desculpa teu nome qual é mesmo ele disse – gabriel eu disse – té mais gabriel ele disse. o elevador desceu num estrondo terrível. pensei em uma boca enorme, um monstro engolidor de gente.
miranda veio falando alguma coisa da televisão e eu reparei que seu vestido era muito longo, cobrindo as pernas e os pés. cheguei perto dela e fiz carinho no seu cabelo. ela olhou pra cima – por um momento examinei seu rosto rochoso e estrangeiro, antes de sentir suas mãos esfregando o meu pau por cima da calça e desviar o olhar.
eu não sabia o que fazer: não agüentava vê-la me olhando nos olhos enquanto me masturbava. segurei então o seu cabelo e coloquei meu pau na sua boca. comecei a empurrá-lo para dentro com violência – minhas bolas chacoalhando como lantejoulas em fantasia de carnaval. miranda fechara os olhos e se segurava firmemente na cadeira. cansado, soltei seu cabelo e passei a mexer a cadeira de rodas pra frente e pra trás. gozei na sua roupa.
me limpei com uma almofada velha cheirando a naftalina. miranda foi ao banheiro e quando voltou eu não estava mais lá.
3
domingo dia de jogo do flamengo, fiquei em casa com renata vendo tv. as janelas sufocadas entre o ar condicionado e o bafo quente do lado de fora. estávamos transando no sofá e eu segurava uma das pernas dela pra cima – renata começou a gritar e eu demorei a entender que tinha enfiado as unhas na sua coxa. pensando agora com mais calma, acho que não estava tentando chegar nos ossos da renata, mas nos galhos secos que são as pernas da miranda.
o flamengo perdeu e fomos dormir cedo. não lembro o que sonhei.
4
encontrei com júnior (ou júlio) no zona sul. trocamos olhares, mas acho que ele não me reconheceu. saí do mercado e liguei pra miranda. nada. atravessei a rua e parei um táxi. beleza eu disse – beleza – ele disse – vou na lineu de paula machado eu disse – tá certo ele disse.
encostei os olhos na cabeça como a cabeça na janela do táxi. o vidro ainda molhado de chuva sendo lambido pela velocidade do carro que varava o corte do cantagalo. pensei em como queria vê-la nua na cama, seu corpo sem proporção distorcido sobre os lençóis. não conseguia imaginar suas pernas subindo e dando lugar a sua buceta. quanto mais eu forçava esse pensamento, tentando prever o encontro perverso dessas duas linhas num ponto futuro, mais confundia meu desejo com ânsia de vômito. aqui tá bom eu disse.
peguei a chave atrás da caixa do correio e subi. ela não estava na sala nem na cozinha. miranda eu disse – ninguém respondeu. fui até o quarto e a encontrei na cama dormindo. o lençol cobria o seu corpo, deixando só a cabeça de fora. puxei o lençol com mais medo do que cuidado e me afastei da cama: nua ela parecia ainda mais grotesca, mais real. eu não conseguia fechar os olhos, mas também não tinha coragem olhar pra ela diretamente. pelo canto dos olhos, eu via aquela massa disforme pulsar na penumbra do quarto. tentei ficar mais enojado com a minha própria repulsa do que com o que via. ainda muito tonto, ajoelhei e a cobri de novo com o lençol.
mas, quando encostei no seu corpo, percebi que miranda estava gelada. estava morta. tirei o lençol de novo e vi a marca das mãos no seu pescoço. havia sido estrangulada. comecei a chorar desesperadamente – não por vê-la morta, mas por ver que as marcas da agressão eram iguais as que seu corpo sempre carregara, já estava tudo escrito naquele corpo torcido e inacabado.
ouvi tocar a campainha da rua e fui até a janela ver quem era. renata. saí da frente da janela e me apoiei contra a parede. se ela visse miranda morta ia achar que fui eu. me lembrei do rosto do ajudante quando nos encontramos no mercado e tive a intuição de que ele estava envolvido. a campainha soltou mais um grito insistente. se renata subisse e visse o monstro sufocado na cama ia chamar a policia. febril, pensei que tudo o que precisaria fazer era contar pra policia que o assassino era o júnior. ou seria júlio.