sexta-feira, setembro 08, 2006





à noite

, na ruela que divide o nosso prédio do da frente, uma nevoa espessa cobre tudo, transbordando pela via principal até a praia e o porto. eu me debruço na janela e consigo ver uma garota passeando pela rua lá embaixo. ela usa um vestido longo, verde ou azul. não consigo ver direito. acompanho seus passos até ela sumir na nevoa escura da alameda. alguns segundos depois, ela reaparece sob a luz do píer e caminha lentamente pelas tábuas de madeira. com a teve ligada na sala, não consigo ouvir o barulho do seu corpo caindo no mar. minha mulher me chama pra mudar o sofá de lugar e fala pra eu parar de incomodar os fantasmas.

quinta-feira, setembro 07, 2006







Manifesto Terceiro-anista


" Sobre o horror de ter a mente demolida"


Redijo. Mesmo sabendo ser esta uma atitude impune, impulsiva e completamente contestável em todos os mais amplos sentidos da coisa.
Talvez o motivo principal desta escrita seja justamente este...o saber futuro que o arrependimento me visitará.
Entretanto, entretantos, não pude ser forte o bastante para desviar para as cucuias a inspiração que germinava e invadia minhas temporas ,para uns feito erva-daninha, para outros feito belas margaridas mas para os dois indubitavelmente regadas tanto pela minha tempestade interna, quanto pela água da chuva que descia já prevendo se enrolarem pelos meus fios de cabelo.
Em suma, escrevo neste momento em que não devia está-lo fazendo, mas o que posso fazer se o pulso do mundo, as vibrações da rotação da Terra e o barulho frio do vento fazem minhas veias me lançarem caminho ao infinito através de minha leve e ingênua bruzundanga de um desesseteanos qualquer que infelizmente sou?
Não sei como fugir desta vontade magna de congelar cada momento e acrescentar detalhes que muitas vezes eu não vi na hora ( e talvez nunca visse se não resolvesse tornar a história mais interessante).
Para os que não compreenderam porque de ser tão marginal este texto, eu explico sem delongas.
O fato é que eu deveria estar estudando!
Deveria seguir aquele mundo de sempre e tentar entendê-lo.
Tentar viver aquela realidade que me encaixaram há muitos anos atrás, e que com os anos passando, só denotam o quanto é impossível fazer o que foi feito ,e ter aguentado todos estes anos temendo esta realidade frágil e cada vez mais frágil ás realidades que realmente imperam.

... Quatro paredes...quadro negro,giz,muitos parecidos e nenhum semelhante,professor e no topo de tudo um relógio que gira para trás...

Hoje, pela primeira vez, se esclaresceu como tudo isso é frágil...

Não que eu nunca houvesse notado, apenas notei de alma inteira ...eu sentia um pouco disto nas violentas aulas de matemática , mas depois de me ausentar de uma prova em branco que só fez enegrescer minha mente foi que tudo fez sentido.

Botei o primeiro pé para fora do cárcere, e logo de início me veio em torno da cintura o abraço do mundo, e num estupro violento todo o universo sem paredes intupiu minha cabeça...
De súbito uma vontade louca de jogar chadrez com os aposentados da praça Saens Peña, de conversar com cada trabalhador em cada ônibus,de saudar idiotamente cada criança de colo e de fumar diversas donas de casa até me sentir com vontade de faxinar...

Num só segundo,eu tinha milhares de pessoas para me importar, de amigos e conhecidos a inimigos e desconhecidos, todos eles me importavam...tudo me importava, era uma questão de preferência...

__Prefiro o Doce da goiaba ao Doce de goiaba!__

Prefiro sentir o original pulsando vivo em cada rua,avenida,alameda, ao invés de ouvir histórias pré-fabricadas sobre ele.

Descobri que o meu maior problema, é que eu quero o mundo!

...e isso ninguém no cárcere jamais me ofereceu diretamente...

Tudo isso parece tão mais convidativo, parece mais interessante viver, para viver!
E não, parar de viver para aprender a viver e depois sim poder viver.

Se escrevo este texto, é mais do que por qualquer coisa pela arte da contra-mão, é por saber que estou traindo minhas convicções e indo pelo caminho mais fácil...
Pelo prazer enorme de estar errado !
E quando escrevo ditocujo meu livro de química fica aberto como quem quer me ensinar qualquer daquelas coisas terríveis que tão bem vão me fazer...

...é pelo ódio de não entender!
...é pelo ódio da atual condição!
...é pelo ódio da falta de escapatória!
...é pelo ódio do baixo teor artístico deste texto que eu troquei pela química!


Ou simplesmente...

Pelo prazer de estar errado!


Você vai sair do cinema outra pessoa

Cinco indicações ao Oscar. Três Globos de Ouro, incluindo melhor trilha. Você vai sair do cinema outra pessoa, dizia o cartaz. Fui ver. O filme era banal, aquela velha história envolvendo piadas, explosões, casais se beijando em uma alameda escura e uma ou duas doenças crônicas. Eu devia ter confiado nos dizeres do cartaz. Ao sair do cinema Leblon, me olhei no espelho e vi um sujeito gordo e barbado, que usava um paletó xadrez. Não demorei a perceber que eu tinha saído do cinema outra pessoa: estava bem mais baixo, tinha ganhado uns 20 quilos, uma espessa barba ruiva e um leve ar de louco. Senti um volume no bolso da calça e tirei de lá um maço de cigarros, um bipe (um bipe!) e uma carteira. Abri a carteira em busca de algo que me identificasse e achei um passaporte húngaro. Zenaj Trojtsek. Esse parecia ser o meu nome. Não achei nem bom nem ruim. Só achei que podia ter saído do cinema uns 5 centímetros mais alto.

segunda-feira, setembro 04, 2006

ESSA SEMANA EU FIZ QUESTÃO DE POSTAR DUAS VEZES JÁ QUE, NA SEMANA PASSADA, NÃO TIVE TEMPO PARA ATUALIZAR.

Salamandra.

Giravam pastos, flores de cortiça e aventais. Giravam carros, escapamentos e motores à diesel. Giravam descasos, aviões de papel, cartéis e máfias. Giravam senhoras de bengala, poemas solitários e livros de quinhentas páginas. Giravam Mônicas.
Giravam móveis, vasos sanitários e ouro de tolo. Giravam cirandas de romarias, vento matinal e rodas da fortuna. Giravam borracheiros, calendários e bebês obesos. Giravam flautas, estradas e pesadelos.Girava o telefone da menina da festa e a luminária em cima da mesa. Giravam certos pássaros australianos, garçonetes búlgaras e irlandas despedaçadas. Girava o céu, a noite e o cheiro de cachorro molhado.
Giravam milharais incendiados, filmes de terror e shows da off-broadway. Giravam velhinhas de ponto-cruz, urubus e centro-avantes. Giravam times inteiros. Giravam banheiros públicos, prostitutas e o tráfico por detrás da rua. Giravam Alices dos plantões das 9h. Girava o mundo.
Giravam padres, homens de fraque, arte e capim. Girava o caos, o cosmos e homens de lata. Giravam exércitos inteiros e espíritos desencarnados. Coisas novas giravam também.
Giravam fundos de poço, flocos de neve e pastilhas de menta. Giravam balas de açucar, pedaços de canela e restos de pequenas folhas. Giravam dias de verão. Girava o verão, o graveto e o cangaceiro. Girava o boi. Giravam cadernetas, canetas esferográficas e filósofos desinteressados. Giravam moscas, açougueiros e dinheiro fácil. Giravam labradores, raposas e fios da operadora telefônica mais próxima.
Giravam gravatas e a alameda. Girava o pombo, a morsa e o carpinteiro. Girava a mesa. Girava o whiskey, a chave de fenda e o martelo medieval na parede do quarto que girava. Giravam colheres de chá e lenços tailandeses. Giravam xícaras de café e ventiladores barulhentos. Giravam tetos, chão, sapatos e nós.

Giravam emblemáticos, simbólicos, rótulos de garrafas envelhecidas; bonecas de porcelana.

Girava o outono, a lama e o guarda-chuva com cheiro de guardado. Giravam pastas, documentos importantes e maletas estufadas.
Giravam botões. Giravam círculos de fogo, fogos de artifício e laboratórios. Giravam contas bancárias, lendas, comunistas desesperados e amores perdidos. Giravam despertadores, senhores de engenho e dinossauros. Girava o isqueiro de papel e a labareda de azulidades. Giravam tabuleiros de gamão, prefeituras e romances. Giravam cinzeiros, trombones e rodas de samba. Girava o gelo no paletó. Giravam saias, meninas azuis e senhoras inglesas. Giravam fotografias.

Girava Marcela. E uma possível flor, girava também.

Giravam rolos de filmes, câmeras e ações. Giravam cabos de guerra, fundos de tigela e panelas de pressão. Giravam discos do Frank Sinatra, tratados alquímicos e palcos de cabarés. Giravam obras de arte, dentes de leite e cobras venenosas.
Giravam arbustos, maldições e mandingas de amor. Giravam rezas, missas e a catapora instantânea. Giravam flores do mal. Giravam sentidos, sentimentos e cores primárias.

Giravam instantes de insatisfação. Girava o excesso e a obrigação.

Girava o moinho de vento, a carne assada com batata e a bandeja com aspargos. As taças de vinho, giravam também. A vó girava. Giravam girafas e girassóis. Girava o legume, a água e a bondade. Girava a maldade. Giravam gritos e acidentes. Giravam caminhões e ribanceiras do interior de Minas. Giravam meninas bonitas.

Rodrigo Arruda girava também.

Giravam aeroplanos, piões e botinas de chuva. Giravam trapezistas, leões e bailarinas desamparadas. Girava o tempo. Giravam agulhas. Giravam casas, gatinhos e revistas.
Girava a gravidade negativa, a sorte, o revés... Girava o medo da morte.

Girava pálido, emudecido e giratório, o menino que de tanto girar ficou tonto.

Fumaça.
(CALOTA)
TEXTO DE SEMANA PASSADA.

Não a conheci num banco, à margem de um canal, de um dos canais, pois nessa cidade tem dois, mas eu nunca soube qual era qual. Era um banco muito bem situado, encostado num monte de terra e de detritos endurecidos, de modo que minha retaguarda ficava coberta. Meus flancos também, parcialmente, graças a duas árvores veneráveis e, mais do que isso, mortas, que protegiam o banco dos dois lados. Eram sem dúvida essas árvores que, um dia em que tremulavam com toda sua folhagem, tinham sugerido a alguém a idéia de um banco.

Quais as palavras?

É como se ela não se importasse com vírgulas, pontos ou animais de estimação. Ainda creio, e durante anos pude crer, que esboços são desculpas. E isso não importa. Mais duas vezes.

Dez.

Ela era uma gigante de poucos versos, uma jovem momentânea. Momentos divertida, momentos deprimentes. Em alguns outros momentos, também deprimente... Isso dependia da umidade do ar. Ainda deve depender.
É como uma velha poltrona já conhecida; digo, aconchegar-se em pequenas criaturas de cabelos dinâmicos e sorrisos dentuços. Eu me lembrava do seu perfume até pouco tempo atrás. Era uma mistura de pontapés, uns atrás dos outros. Cada qual é cada qual e seus olhos manchavam o ambiente: o esquerdo era grotesco (não o bastante), o direito era angelical. O esquerdo perguntava e o direito fingia responder.

Os pedestres não se importavam muito.

Isso acontece, e disso eu sei. Com ela era mais fácil. É como se estivéssemos em união, como uma só pessoa que não aguenta mais colecionar trovões e acumular pontos de armário. Ela tornava-se a cada passo mais vulnerável quando se metia na minha caixa e insistia em seguir seus instintos-cena. Pra mim. E não pro outro. Ao revelar-me as pontas dos cabelos, me dava remorso. Focava instantes normais e me dizia que tudo iria passar. Como passou.

Eu deveria tê-la acreditado.

Naqueles momentos de correria, percebíamos calados seu esforço por existir. Resguardada. Uma banda feita de palavras mortas e nada românticas embolava-se por ali. Sem nenhum sentido, também. Aquilo se sucedia de forma catastrófica e eu já previa que meus charutos se encharcariam, impossíveis de se fumar. Não gosto de lembrá-la frágil. Nem fragilidade seria. Isso dependeria das flores, as flores que ela mesma arrancou da terra, duas ou três. Sem nenhuma paciência.

Ontem. Amanhã. Agora mesmo. Um bando de corvos sobrevoa nossas cabeças.

Me faço esquecer dos nomes das flores; rosarigas, marochas. Gosto de descasos. Eu e o meu picadeiro cinza tão sem nome. Me sinto viril e capaz hoje em dia. Verdade. Eu posso dizer isso aos berros. Não que alguém iria ligar, mas... Por charme. Gosto de charme. É bom. Charme. Repetir. Me sinto charmosa. Já não sei se falo dela ou de mim. Olá. Minha cabeça pende hoje para um lado: blues, jazz e cigarrinhos. Dois idiotas. Eu sei de tudo isso.Encontro-me só após aquilo que se passou. Às vezes me pergunto se tudo isso não foi invenção. É claro que foi, porra. Como pude me esquecer? No entanto, minha imagem ainda me parece presa, ligada à meu reflexo abatido, correndo, andando, dormindo ou dormindo. Isso é só mágica. Truque de calota de caminhão. Quase isso. Carroceria de caminhão. Não preciso provar nada, afinal, não tenho mais 16 anos.

Vejo travestis cruzando a praça. Que janela. Que sorte a minha.



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