sábado, julho 15, 2006



Sobre a fraqueza do ser

O medo transforma, faz do homem o que não quer ser.

Olha o que não quer fazer, reconhece o seu descontento.

Mas a responsabilidade de ser, suportar a rejeição promove o regresso.

É preferível o mal feito fácil à possibilidade da não conquista.

Me enoja a mim mesmo ao faze-lo de tal forma.

Mas faze-lo de uma forma ou de outra é a minha existência.

Sou. Amo. Faço, em desespero para não ter que gritar.

A janela me chama.

O amor faz de um homem tudo o que ele detestaria ser.

Desprovido de escolha, é.

Se ao menos a segurança não abandonasse os mais fortes.

Perante a mais bela das visões.

Queria não querer.

Gostaria de não gostar.

Mas é assim o homem.

Assim sou eu.

Assim, é quem ama.







série de fotografias
(variação livre num tema de vertov)



garota sentada num balanço.
pôr-do-sol e bicicleta no cais.
um cara de braços abertos no cristo.
você, criança, perseguindo um ganso.

menino imitando a cara do pai.
três por quarto de um homem albino.
modelo nua contra fundo branco.
você, de pirata, em cima de uma caixa.

polaroid de uma mulher dormindo.
jovens posando com a estátua de um santo.
cidade acesa em cima, noite embaixo.
você rindo com um álbum dos beatles.

sapato dentro de uma poça d’água.
alguns pássaros num poste de luz.

sexta-feira, julho 14, 2006






A Sapiência


Outubro,de 1894

-Fazia frio no Rio de Janeiro, e um preto bem velho fumava um cachimbo e mascava tabaco tomando pose de sábio, o sábio que sabia que não era por tantos anos de sapiência.
Não tinha um cachorro, tinha uma lebre.
Tinha um pato e um marreco, um prédio bem alto e uma mulher, principalmente esta mulher, a tinha tão forte pelo fato de não a ter fora de suas lembranças, fora de sua cabeça, que era onde ele realmente tinha todas as coisas supracitadas.
Mas ali, naquele cais onde ele fingia-se de sábio encarado pela lua cheia magnânima e trêmula, parecia só ter seu chapéu de palha e alguns poucos restos de pano que envolviam seu corpo com arrogância de pensar que seriam capazes de enrolar qualquer corpo,mesmo que humanóide.
O vento, não precisa ser explicado para aqueles que já estiveram num cais no Rio de Janeiro as 2 da manhã semi-vestidos e com um chapéu de palha que cismava que podia voar.
Sentia o cheiro da morte, mas sempre o sentiu em todo o canto , talvez por sempre ter alguém morrendo em algum lugar do mundo.
Depois de ser convertido de simples sujeito, para sábio nunca mais amou alguém, detestou alguém ou soube qualquer coisa de cor, só fazia estender seu corpo largo nas tábuas de madeira que se uniam para estabelecer o cais.
O peito do velho vibrava de uma forma que só os peitos de sábios são capazes de vibrar...peitos calejados, peitos cheios de dor de uma alma desesperançosa e de tão grande , que quase que medíocre.

_É de sofrimentos que se faz um homem._

E de desilusões que se faz um sábio.
Durante sua vida, de sujeito comum ,nunca verteu uma só lágrima, o que preocupava toda a sua família, menos a sua avó , que por saber do destino da criança, logo tentou alcalmar os pais dizendo que era normal que pelas dores todas que implicaram na gravidez e no nascimento do moleque, e todo o sofrimento qual ele viria a enfrentar em seu futuro, ele não chorasse agora , na infância, pois ainda teria muito o que chorar nas épocas em que se realmente deve. _avós sabem de tudo_

Nunca chorou mesmo, e por isso ainda sem entender, queria chorar...em seus momentos de insapiência.

Quem passasse pelo cais, jamais seria capaz de entender.

Este cais do Rio de Janeiro não possuia, água.

Pois,sim...os cais no começo não tinham água eram apenas espaços largos e com muita terra, sem peixes ou quaisquer outras destas cousas...o que acontecia é que donos de frotas de barcos que já viajaram pelas regiões mais ermas do universo aprenderam, que os sabios é que colocavam as águas nos lagos rios,riachos e cachoeiras...minto, cachoeiras não...das cachoeiras cuidam os vendedores de cata-vento..um outro dia eu talvez fale deles...

Aquele sujeito cujo nome eu não estou autorizado a citar, foi o primeiro sábio carioca...e estava realizando pela primeira vez a função que diversos outros sábios realizaram anos antes dele...colocar água nos cais.

O primeiro grande desafio, era entender, assim pensava Tião, o primeiro sábio de Teresina,como poderia chamar de cais aquilo que não tinha nem água para navegação...haviam já as pontes de madeira como que mirando o nada com esperaça infantil que seria tola, não fossem os sábios que sabiam o que fazer...assim ele tentava ser, um sábio que sabia o que fazer...mas ainda não o era, era um aspirante a sábio...

Pôs-se a fumar e a fumaça de seu cachimbo parecia se confundir pelos seus cabelos brancos e olhos pesados, pele escura fazia inveja na noite, feição rígida que fazia inveja as pontes de madeira, só desejava transformar a mente em calma e perene para que pudesse fazer inveja ao rio que iria nascer...mas não tendo rio, ou ninguém para sentir ciúme, ficára na mesma e com a mente ainda agitada.

Não entrava na cabeça dele por alguns longos minutos que aquilo fosse mesmo um cais...não havia água!

Inaceitável, nada era pois já passara desta fase da vida dos sábios em que aceitam tudo como inaceitável...olhou de novo para o enorme espaço, se levantou e se sentiu sábio.

Catou seu chapéu de palha que para variar havia voado...olhou seu reflexo na fita vermelha do chapéu e pela primeira vez, não se viu um preto qualquer...viu um sábio qualquer...teve medo.

Olhou para frente de cabeça erguida mirando a lua como se quisesse devorá-la, põe o chapéu na cabeça, não percebe mas ele voa com a brisa do mar .

Mar?

-Mar.

Foi pegar seu chapéu de volta com seus dedos trêmulos, quando abaixou-se...não sei bem como,mas sentiu gosto de lua na goela preta, o gosto de lua é um pouco indescritível, aposto que todos já sentiram...mas naquele momento estava mais forte, a parte mais ácida estava mais exaltada...parecia até gosto de núvem.
O vento daquele rio estava cada vez mais frio, mais frio e mais real e mais 3 horas da manhã a medida em que ele se sentia mais sábio...se deu conta que se ele se acreditar : sábio...o chão se acreditaria rio...e ao notar isto abaixou os olhos com a paciência de um sábio e permitiu que a gota serena que daria o início a todo um cais deslisa-se pelos seus grossos lábios e encontra-se o chão...

Chorou e ao ver o mundo com os olhos de sábio, chorou muito mais, cada gota dava coragem as plantas marinhas para nascerem, entre elas a mais bela flor de todas, uma acássia amarela...rodiada de água, que quando ele olhava acreditando nos olhos de sábio...via sua avó rodiada de água e não precisando saber nadar _avós sabem de tudo_.
O velho sábio, refletido na água forjava a imagem real de como um sábio deve ser...um menino preto de 10 anos de idade, agora formando um enorme sorriso e indo correndo ao encontro de sua avó...os dois ainda chorando e o rio enchendo...quando os dois peitos se encontraram ouve um estrondo que arrepiou todas as pessoas , as águas já suficientemente completas,subiram aos céus...avó e avô esplodiram e viraram 2.546 peixes de 2.542 cores diferentes...depois a água caiu , banhou os peixes...e mais um cais se formou.

FIM.

quarta-feira, julho 12, 2006




SOBRE O QUE NÃO ME PERTENCE MAIS

Depois que tudo se acaba, a vida sempre prossegue, perder alguém especial é como perder parte de si, reza a lenda de que os homens não sabem ou não ligam pra isso, existem os que pensam que homens sofrem mais, por mais tempo, eu, descabido de qualquer força que me ajude a expressar uma opinião, me calo.
Será tão impossível deixar alguém e só sofrer por isso meses depois?
Será possível sofrer por algo que foi feito com tanta certeza?
Será sofrer a palavra certa?
Eu me calo.
Cada vez em que erro na vida começo a me ausentar das opiniões próprias.
Me torno relativista ou me calo.
O fato é que ante-ontem descobri que a mulher da minha, era agora da vida de outro, e antes de pensar o que podia ou não podia pensar, meu coração se encolheu e meus olhos se encheram d’água. Senti parte de mim me desfazendo... Doeu.
Se é justo doer ou não, não sei. Mas doeu.
Nada havia nem haveria de ser feito, apenas me levantei e abri a janela por onde já tinha visto aquela menina bonita sair da minha vida algumas vezes e uma força visceral me tomou e fez com que eu gritasse... Como nunca havia gritado na vida.
O grito tinha um desespero esquisito, um fôlego enorme e um alívio contraditório.
Ouvi talheres se espatifando no restaurante em frente, um freio de carro repentino no início da Rua e quando dei por mim tinha capturado todos os olhares que podia alcançar em minha visão.
Meu amor parou o mundo que me cercava mais uma vez.
Pena que foi pra ir embora...

Que ela seja feliz do jeito que estiver
Que ela seja feliz como sempre quis
Que ela seja feliz como eu não a consegui fazer.

segunda-feira, julho 10, 2006



Domingo, 23:00, 09/07/2006

Voltamos do Camorim com a mais agradável sensação de bem viver. O fim de semana deixou seu calor nas nossas peles e no nosso humor, com muitas doses de saquê ao anoitecer. O caminho muito esburacado, ermo, iluminado apenas pela lua fazendo sombra nos postes sem luz. Um emaranhado de concreto sem sinalização me conduz a caminhos errados, obscuros, labirintos no Rio Centro. Carros me ultrapassam em alta velocidade.
Homens cariocas de terno em suas salas de agradável brisa artificial flutuam no meio termo entre a primitividade e progresso, com muitas doses de felação.
Barra. Na imensidão solitária de imensos é-dificius um menino equilibra bolas e têm minha compaixão. Um menino fingindo ter o braço amputado equilibra bolas na imensidão solitária iluminado pelo muro do Terra Encantada. Um menino se equilibra fingindo não ter um braço e toca a minha mão. Minha mão equilibra um menino que joga bolas na imensidão fria e seca das prisões da Barra. Juntos, sabemos que não há Terra Encantada. Juntos, sabemos que eu não quero dar esmola para ele. Na imensidão solitária de imensos edificeis um menino equilibra bolas e têm minha compaixão. Sigo blindado? Eu não.
Carros velozes me ultrapassam e já não sou mais tão imprudente: trafego pela pista da esquerda.
Lagoa. Fernanda fuma seu cigarro janela meio aberta/fechada; compartilhamos mudos à mesma sensação de esquizofrenia pós-calmos momentos no pequeno recanto paradisíaco do Camorim.
Dois meninos flertam nosso carro, ponto de ônibus ao lado. Fernanda, sincera, pensa em não fechar o vidro: preconceito, preocupação, ingenuidade? Ela divide comigo sua sincera questão enquanto um carro de policia dá marcha ré na rua perpendicular:
- Fecha a janela que tem um policial vindo ali, vai dar merda.
Fernanda fita os olhos dos meninos que fitam seus olhos que vão escurecendo conforme vai subindo o vidro fume. Um policial caminha em direção ao ponto de ônibus, um garoto salta em direção ao carro da frente, eu buzino, aumento os faróis do carro e dou ré, outros carros buzinam e o policial corre de arma na mão, pelo meu ponto de vista o tiro seria na nossa direção mas o outro menino que dá cobertura não está armado, o que estava no carro da frente agora começa a correr ao ver o policial, que gritou, eles correm para dentro da praça, o policial corre enquanto o outro fica dentro do carro que ainda está na rua perpendicular.
Juntos, sabemos que não há Terra Encantada. Juntos, sabemos que agora eles já não pedem esmolas.
O Sinal abre.
O fluxo de carros segue, o carro da frente segue normalmente (não dá pra reparar se ele teve algum dano). A esquizofrenia que dividia a dois, compartilho com os outros motoristas que, embora nos os vejam, estão assustados: dirigem mais lentos, outros ainda buzinam, outros seguem normalmente quando não da pra seguir normalmente depois disso.
E para àquele que não desejou a morte dos dois garotos, que quis dar carona aos três vultos que viu andando na pista de alta velocidade entre São Conrado/Lagoa e que está pensando nos ocorridos até agora, que não vai estar aqui nesta cidade durante o Pan (ou se tiver ficarei em casa ou escondido em outro lugar), restou a escrita como forma de registro, de algo, ou o que, algo assim que se perdeu ou que se achou, que esta acontecendo e não da mais pra não ver.
Em quem você vai votar nessas eleições?
Juntos, sabemos que não há Terra Encantada.

domingo, julho 09, 2006



O brioche disse pra briocha

És tão linda,

Que nem a flor,

Nem a abelha

Do doce mel vinda,

nem ao beijar o aroma

Ou ao provar do néctar

sentiu finda

Um doce tão doce

Quanto o doce que é

Olhar para ti ainda


Hoje em dia, só os brioches sabem amar com tal intensidade...


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