sexta-feira, junho 09, 2006






fragmento (interditado por um comentário) da vida de um mameluco qualquer.



“ - Ele é mameluco porque é uma mistura... – disse Carlos olhando para a parede.
- Todo mundo é mameluco, filho. “
Marimbondos de Fogo, José Sarney




...pensa e finalmente termina de mijar. Fecha o zíper, volta andando calmamente pra perto do carro (será que esse cuidado todo para afastar o mato do rosto, esse jeito delicado de empurrar os galhos para longe, não tem nada a ver com aqueles dias em que saía com o pai pra pescar - dias em que desciam aquele matagal fechado em meio aos ‘cuidado com o moleque, gerson’ e os ‘faz tudo o que o teu pai mandar, viu guri’ que sua mãe ia gritando enquanto os dois sumiam morro abaixo?

Desciam sufocados pelo verde até a metade do caminho: dali pra frente o mato diluía e sobravam só umas árvores enormes. Gerson carregava as duas sacolas pro menino poder tacar pedras nos micos e nos passarinhos.

Quando o pai já estava muito doente e a catarata o impedia de olhar as visitas nos olhos, a historia de como wagner uma vez acertou em cheio um passarinho e ficou andando o dia todo com o bicho morto na mão era uma das poucas coisas que ainda moldavam um sorriso no seu rosto velho enquanto contava para quem estivesse em volta.

Wagner acompanhou o pai até os quatorze anos. Enquanto observavam a linha dançar na água, sentados na beira do rio, tinham todo tipo de conversa de homem pra homem – ate o dia em que waguinho virou homem, aí não só as pescarias pararam, como as conversas de homem pra homem também. Aos quatorze se mudou pro Rio, foi morar na casa de um primo em Rocha Miranda, passar os dias vendo gente com mais dinheiro que ele sair do Colégio Salesiano e ir comer no Habib’s.

Nunca mais viu o pai. Nunca mais jogou pedra em passarinho, mas – em compensação – aprendeu a atirar com arma de verdade e passou a dar asas pras pessoas ao invés de tirar dos bichos que já tem.

Será que ele pensa no seu Gerson – será que pensa no seu falecido pai e nas conversas que tinham na beira do rio – enquanto sobe de volta pra clareira onde está o carro) e checa se o morto já começou a cheirar no porta-malas. Wagner acende...


O acontecido

1- Carta de Gueppardo a Déborah.

Querida Déborah, depois de consumado o fato, torna-se inegável que o acontecido, aconteceu.
Mesmo que acreditando tu Querida Déborah, que ele não tenha tido algum fundamento em lógica,creio eu cá com meus botões que se carecesse de lógica ele não teria havido, nem a mim, nem a ti, nem conosco já que somos pessoas sanas e portanto tementes a lógica e qualquer pensamento que prega que aquilo não tenha acontecido é inverossímio, digno de pena, repulsivo e anti-aderente!
Embora ache eu que os ventos que ventam cá não ventam lá, eu não estaria errado em afirmar que os dois são ventos acima de qualquer suspeita, ventando ou não.
Oh Minha Querida e Amada Déborah, se não tomasse tal fato tom tão catastrófico, poderia até ser cômico na realidade e se minhas tão rígidas e autoritárias lágrimas permitissem talvez eu esboçasse até uma pequena e tímida parte de minha dentição deformada por chupar chupeta até os onze anos.
Mas não o neguemos Déborah, pois ele realmte ocorreu, não foi sonho ou pesadelo, era concreto ou mais que isso.Nas noites em que me pego calejando meus pensamentos com lembranças lastimosas de dores desequilibradas me baseando na fatídica tarde, me vem a cabeça que ele pode não ter ocorrido , como você presume com certeza quase que jurídica, me deixando completamente incerto, uma incerteza quase que jurídica, eu poderia acrescentar com sucesso.
Quanto ao sigilo, adianto-te que podes recostar teu céfalo no travesseiro com calma oceânica durante muitas noites, pois não revelei nada á ninguém, além de nossas pessoas tão culpadas, ou satisfeitas ,ou aflitas, ou cansadas, ou enojadas, ou felizes, dependendo apenas do vento que ventar.
Além de nós, ninguém mais é sabedor, ignorando é claro aqueles dois anões de Marechal Hermes que eram os únicos com tecnologia suficientemente potente para girar aquelas manivelas e encostar os fios B, nos cabos de aderência A com tanta calma que os fazia capaz de comer todas as bananas ouro que durante a primeira fase do acontecido nós tivemos que depositar embaixo do castiçal ( que precisava ser de mármore com detalhes em carrara, que perrengue!).
Enquanto escrevo , me recordo das péquenas luvas de croché e o quanto elas incomodavam o Rotweiller preto e creme ( como exigiram que fosse) e o quanto a pequena Diná (mulher do anão mais negro) ria chegando ao cúmulo de deixar fluir barulhos suínos, que agora depois de que tudo se foi, confesso que eu até penso que deram um clima bastante apropriado ao momento.

Apesar da minha tristeza, que é fruto da minha falta de sapiência sobre a existência e significância ou não do acontecido, esta não é uma carta de suicídio( pelo menos não até a linha 40).
Talvez fosse mais uma carta-desabafo, eu precisava falar com alguém sobre o acontecido e toda a sua magnitude não só em minha, como nas nossas vidas, mas vendo que o que aconteceu ,foi entre eu e você, não seria realmente cabido eu me desabafar justo contigo que fez tal coisa junto comigo, e cá entre nós , foi o motivo real d’eu tê-lo feito.

Esta é uma carta de suicídio.( pelo menos até a linha 54).Por não saber bem como viver com esta dor dilaceradora em meu peito e roçando em minha alma, como pude eu ,ter cedido ás minhas naturezas vorazes e tomar aquilo como atitude? Ou você também, que no fundo de teus olhos brilhantes, parecia tomar gosto pela situação?

Cabeça mais organizada, decidi :
És também culpada!
Preciso matar-te também...

Esta é uma carta de homicídio!

Já não é mais...A vontade que tenho de te ter sorrindo como quando eu sorri depois de você ter saido ilesa da caixa com as espadas de ouro e marfim que foram requeridas com tanta necessidade, para que o acontecido obtivesse êxito é muito maior do que qualquer vontade de macular qualquer parte de teu corpo , como quando aquela hora em que fazia Sol durante a quinta parte do processo e a tal chaleira de louça virgem queimou-te a lateral do braço.( aliás precisamos devolver a chaleira a minha tinha avó que nem sabe o porque de nós termos pegado a emprestado, e que morra sem saber).

A realidade maior Déborah ( ou devo lhe chamar de girondina?) é que levando em consideração o frio que fazia em Petrópolis durante o acontecido ,sou hábil em constatar que além de puros comparsas, nós somos bem mais...acho que você me entende meu grande amor.

Beijos carinhosos e abraços á francesa de Lord Gueppardo do Sul de Amsterdã!



2- Carta de Déborah a Gueppardo.

Bom Gueppardo, nada desejo mais de que tua boca...calada!
Penso que és louco em pensar em mencionar o acontecido perante cartas, não pensou nas consequências seu tolo? És o mameluco mais incauto que já pude ter contato!
Não sei se sabes, mas grande parte dos coroinhas da igreja são alfabetizados, pra não dizer melhor: Todos! Todos já dominam as letras perfeitamente e poderiam ler tua carta e nem quero pensar como ficaria toda a situação.

Exigi aos meus valetes que dessem sumisso com os tais anões, mas volta e meia, vejo um baixote circundando minha janela e instigando as minhas vistas.Preocupante!

Mas, trate de ler esta carta com o maior dos sigilos que fores capaz...
Pois mantenho minha opnião sobre o acontecido e vou te dizer com letras firmes:
Ele não aconteceu!

Não poderia ter acontecido por livre e espontânea vontade, a verdade é que eu não me senti confortável ao fazê-lo , pareceu-me demasiado bruto e incompetente ao amor que tenho por ti...
Nem por todos os potes de mel do mundo eu repito este feito...minha sobrinha pareceu ter gostado ao me olhar com olhos pidões e quase soluçantes...ela ainda sabe pouco da vida.

O que sempre me atrapalho em dizer com palavras, é que o acontecido foi forçado e inverossimio como você mesmo disse, não sei se um dia eu seria capaz de fazer valer com a realidade e vontade necessária, ou se quando eu resolver que é a hora de fazê-lo com realidade e vontade( que não está longe), a cachoeira continuará lá a brilhar ou se as algas marinhas vão topar voltar naquela parte mágica do sul de pertópolis que por Deus, como fazia frio.

E respondendo as suas perguntas, meu bom Lorde ( hehehe), sim eu sei que nós somos mais do que comparsas, somos talvez mais unidos que qualquer um daqueles trigêmeos que nos apontaram o caminho errado do canil do Rotweiller.

As vezes de noite, também sinto a dor do acontecido como se me perfurasse e me fizesse menor, embora não pareça nada em nossas vidas, as vezes queria com toda a gana do universo esquecê-lo e tratá-lo como apenas um sonho ruim que tive com você.Mas acho que,minhas roupas rasgadas e meu blazer completamente desbotado, nunca vão me deixar esquecer.

Gostaria de me despedir citando Paulo Leminski, mas ele nos proibiu depois de termos cantado a cantiga de maneira errada, em vez de “ Madame no seu caminho” , o certo é “ Deixa-me andar sózinho”, e é claro que gostando desta música como o bom Paulo pareceu gostar, ele brigou conosco.

Enfim, aconteça o acontecido que acontecer, esta é sempre será e acima de qualquer linha, uma carta de amor!


Beijos carinhosos e abraços á francesa, Déborah!



Fim

quinta-feira, junho 08, 2006



O Pufe


- Bora rachar um skank? disse um dia um amigo meu.
- Quanto é que sai?
- Se dividir, uns 10 reais.

Mesmo achando caro, topei entrar nessa. Até porque em seguida iríamos a uma festa. Podia ser divertido, pensei. Assim, nos reunimos na casa de um terceiro. Lá não havia só o dono da casa mas um quarto elemento, que apertava o baseado, finíssimo. Dei um tapa. Dois. Três. Tossi freneticamente. Dei mais um tapa e passei adiante. Fora o cheiro – mais agradável que o normal – e o acesso de tosse que ele provocou, parecia um baseado qualquer. Mas, conforme percebi logo em seguida, não era. No carro já comecei a perceber um silêncio geral, que seria adequado se todos estivessem indo a um enterro mas no mínimo esquisito em um carro de jovens indo a uma festa.
Chegando na festa, as pessoas eram esquisitíssimas e o ambiente nem um pouco acolhedor. Não conhecia ninguém e todos pareciam se conhecer. Fui entrando na sala da casa até que naturalmente me encaminhei até um pufe que misteriosamente permanecia vazio naquela festa cheia.
Sentei-me.
Depois disso me lembro vagamente de um mameluco black power vir me perguntar que horas eram, de um garçom que me ofereceu bebidas (que eu recusei por não conseguir alcança-las) e de uma menina vomitando no meu pé. Só percebi que eram 5 da manhã pois uma faxineira varria meu sapato insistentemente. Resolvi então que era melhor tomar uma providência e levantar. Foi aí que percebi que não conseguia sair dali. Tentei mais algumas vezes até que a família que ali morava, acordando para o café, veio ao meu socorro. Tentaram todos me puxar, ao mesmo tempo, mas nada aconteceu. Por mais que tentassem, meu corpo já tinha virado parte do pufe, que por sua vez era parte da sala. Para me tirar dali, seria necessário tirar a sala inteira. Assim, foram aos poucos acostumando-se à minha presença e hoje sou apenas mais um móvel da sala. Discreto, não incomodo ninguém. Já nem penso mais em voltar a ser o que era antes. Na verdade, confesso que na maioria das vezes nem lembro mais o que era antes: me sinto cada vez mais perfeitamente adequado à minha atual condição de pufe. Acho inclusive, depois de muito meditar, que o skank só fez libertar o pufe que já existia dentro de mim. E nada mais.

quarta-feira, junho 07, 2006



SOBRE UM PEDAÇO ENORME DE MIM

O gênio é aclamado por onde passa, ele senta e é gênio, ele fala e é gênio, ele bebe e é gênio, ele briga e é gênio, ele tem gênio de gênio.

Ele tropeça em pensamentos, existem milhões de informações processadas naquele cérebro privilegiado mas ele prefere retirar de lá as mais simples e sinceras e jogá-las ao vento com a inocência de quem daria tudo pra voltar atrás e não cometer um erro bobo do passado. Volta a tropeçar em pensamentos...

O corpo se estica na chaise-long de um apartamento de alta-classe, ela é apenas um dos inúmeros móveis lindos, que ocupam toda a sala com vista panorâmica para a terra dos mamelucos. Ele nem pensa nisso enquanto se estica.

Volta a falar, e eu, num sentimento de minoridade enorme, causado pela verborragia espontânea do poeta, me torno um interlocutor sem locução. Observo e escuto sabendo que aquele momento é único... Único e raro, adjetivos que podem até ser similares, mas na boca dele se tornam dois universos distantes.

Suas arfadas são longas e tem minha companhia, seus olhares são lentos e tem minha contradição inquieta de jovem, sua cabeça inspira a simplicidade enquanto a minha tenta unir tudo o que nela é incluso para entender algo do que se passa...

Quanto menos entendo, mais percebo que aprendo.

Papai, sem saber de nada disso, se despede e vai dormir o sono dos gênios.

segunda-feira, junho 05, 2006



Re:alugando o coleguinha

Oi Rafa.
É com certo alívio que lhe escrevo. Alívio bom de missão cumprida, alívio de perna dormente, de dor na coluna; de cabeça e corpo a mil, de vontade e de poder descansar. Quero descansar muito. Essa última semana foi intensa: muita correria, faculdade, trabalho, trabalho de faculdade, ensaio, transporte de cenário... A estréia foi boa, funcionou tudo bem apesar de todos estarem muito cansados. Estreiar foi uma delícia e você precisa ver o espetáculo.
O Lincoln tá querendo que nos apresentemos na Mostra na sexta-feira. Você dirigindo eu e Baines. Eu só topo de você topar e comprar essa com a gente. Eu me preparei na sexta-feira para reenviar a encomenda que aqui chegou para o Recife mas desisti assim que entrei no seu quarto: o pacote estava aberto e as coisas num canto do quarto (atendendo seu pedido de carregar o aparelho), o Remo dormia com o meu rádio ao lado e o Henrique tava com uma buceta na tela do seu computador. Eu, no auge do meu mau humor, desisti.
Para piorar as relações o Remo levou meu rádio sem me pedir para a nova residência dele. Enfim, só pude colocar no correio hoje pela manhã e no Recife não tem SEDEX 10, mas o cara falou que ainda assim chega amanhã aí pr`ocê. Sei que sua ansiedade precisava dele para sábado mas realmente não foi possível por uma combinação de fatores. Nesse momento não acho o papel com o número da encomenda, mas assim que encontrar te mando. Posso qualificar o cara positivamente? Me avisa quando chegar.
Você falou para chamarmos alguém para limpar a casa mas eu só vou me movimentar para isso quando a louça suja que ficou de herança na pia sumir. Estou com uma certa dose de intolerância com a sujeira que eu não produzo. Vamos deixar esse ritual de passagem para daqui a alguns dias quando as coisas tiveram mais tranquilas e humor melhor.
O Jorge tá tranquilo. Tenho misturado à ração Pedigree àquela outra mais barata para render. Não se pré-ocupe pelo menos no que se refere a alimentação dele.
No mais, espero que esteja tudo bem por aí, que aproveite bastante (e sei que está!).
Mande notícias.
Abraço mameluco,
o cara que um dia cruzou o seu caminho e não some de vista!
:-))

domingo, junho 04, 2006



Capadócio

de

Ogum

Geoge nunca gostou muito de saber que parte de sua família era de negros africanos. Era um homem muito ligado às suas raízes. Tinha um enorme orgulho por ser, nascer e crescer Turco. Essa descendência parcial vinda de uma segunda origem o incomodava. Cutucava em seu orgulho. Orgulhoso era ele. Homem sério, bravo, lutou com unhas e dentes por seu espaço em sua vila. Agora era chamado de Geoge o Ferreiro, diferente de outrora quando não passava de filho de Mika. Uma vez seu agora falecido bisavô, o último com alguma ligação direta com as origens africanas, dissera que o primo-antecessor de sua família na áfrica também fora ferreiro, e que depois, com suas conquistas em guerra, teria sido um grande Rei. E seu nome era Ogum. Dissera também, sem maiores esclarecimentos de linhagem ou tempo, que ele seria filho de Ogum, mesmo sendo algo mais parecido com Tatarataratarataratara-neto. Não dava muita importância, pensava ser pura mitologia antiga, lenda que velho gosta de contar.

Gerado na Capadócia e criado na vila de Tarkry, à sua margem, Geoge teve criação bem simples e firmada nos preceitos de honra e honestidade herdados de seu pai. Nunca foi capaz de ferir um ser. A menos que fosse provocado até onde não toleraria. Deste ponto em diante, bradava raivoso e brigava com todas as forças até obter justiça.

Fundadas em sua própria garra, suas conquistas eram poucas, mas lhe dava o orgulho de um rei amado pelo seu povo. Possuía, além de sua mulher e casa, uma casa de ferreiro bem cuidada e um lindo cavalo branco, usado para o transporte de mercadoria, batizado dragão – por sua resistência ao calor e peso dos ferros quentes.

Entre tantos, o dia 23 de abril deste ano teria sido um dia de apoteótica virada na vida deste homem. Atravessara o pequeno trecho de deserto antes de sua vila, para alcançar ferramentas na Capadócia, quando tomado pelo calor e pela exaustão parou, descansou seu cavalo e olhou em volta. Uma leve sensação de tremor tomara seu peito e as ferramentas em seu colo esquentaram sem razão. Sua mente entra em alerta e começa a olhar, atordoado, a procura de algo, como que um radar.

Três estalos de chicote e um berro! Ele olha por cima de sua montada e percebe algo como um cercado maltrapilho envolto por homens barbudos e armados com diversas ferramentas de ferro. Ferramentas de tortura. Geoge concentra-se, cerra a vista e percebe que dentro do cercado, às chicoteadas, estão centenas de menininhos negros, vestidos de azul e branco.

Em seus ouvidos ouviu tambores. Os sentido aguçaram à medida que se foi a audição, ofuscada nos tambores, e assim, embebido de fervor e enraivecido ao ritmo das batidas, berra OGUMYÊ!!!! E hesita em direção ao cercado. Ele não chega a atacar. Pára diante de todos e olha com olhos rasos d’água e mareados em fogo. Os meninos cessam os gritos como se não sentissem mais dor e os homens atacam impunes. Em vão. Parece ter controle sobre todo o ferro. As correntes arrebentam. As espadas se quebram, sem o seu corpo tocar.

Geoge agora com lança e escudo, que parecem ter se criado de sua garra, defronta os agressores. Dá sete giros e pousa os joelhos ao chão e, imóveis, os homens vêem seus pés soldados à terra. Ele então atravessa-os e decepa os membros como quem abre as matas.

O silêncio berrou por dez segundo, quando Geoge se prostrou perante seus meninos. Seus filhos. Filhos de Ogum. Jazia ele careca, em azul e branco. Espada e escudo nas mãos. Uma lágrima furtou-lhe a calma e ele pranteou. Pranteou um rio de água morna que guiou seus filhos de volta à angola.

O cavalo, em guarda, esperta. Geoge em tonteio desperta. Como que despertando de um sono levanta-se, olha em volta. Procura algum rastro das crianças que antes sofriam. Repara uma nascente formada por rochas que mais pareciam ferro e rodeada por flores brancas. Ao topo, um cristal em forma de espada. Estranha, mas não reprime a sensação de justiça, dever cumprido que o envolve. Geoge não monta em seu cavalo. Em pés descalços anda, e onde ele pisa nascem flores.

Tão embebido pelo aroma etéreo das flores, nem percebe que seus olhos brilhavam azuis.


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