sábado, maio 06, 2006








Insustentável beleza das mais vagarosas tristezas


Mais do que nunca a feliz tristeza lhe bate à porta.

João Luis era já velho freqüentador dessas verdades contraditórias. Achava ele que as mais contraditórias eram, por alguma razão, as mais bonitas.

Acorda. De súbito percebe que sonhava, e ao digerir essa nova sensação vê, entrando pela nuca, uma enorme dor de cabeça e a volta do gosto amargo que sentira na boca durante o precoce sonho de angústia próspera. É a primeira vez que sente voltar uma sensação obtida em sonho...

Batem à porta.

Era sua tia, Estela, com uma cara abatida – coisa que ela normalmente tinha, mas dessa vez estava acentuada. – Já entra sem nem dar bom dia e senta aflita no sofá. – Preciso falar contigo. – diz ela ao entrelaçar os dedos das mãos no tecido vagabundo de sua blusa. – Sua avó... – Nesse instante lhe acentua a amargura na boca e lateja a dor de cabeça. Lembra de sua linda avozinha deitada na cama com um ar de serenidade. Pensa no quão foi feliz e doce aquela linda mulher.

Fecha a cara.

Como pode uma pessoa tão boa passar um momento tão difícil no fim da vida... nem a morte lhe é segura. Era só o necessário, ela merecia morrer logo... sem dor...

Um pequeno sorriso.

Fica feliz por ela estar indo, terminando uma trajetória muito rica, mas que já se tornava enfadonha e torturante. A mais doce das criaturas poderia enfim ter seu merecido descanso, ou com ele acreditava, ir para um estágio mais elevado da alma, que não cabe em um simples corpo humano.

Uma lágrima quis lhe furtar a expressão singela.

Isso o irritou... ele mesmo o irritou. Como é ridículo... estúpido... ficar triste pela passagem de uma pessoa que tanto o merece. Quão egoísta uma pessoa pode ser, que chega ao ponto de não querer que uma pessoa se vá por que vai fazer-lhe falta? Que enorme maldade querer privar uma pessoa de seguir seu caminho, de ser mais feliz.

Dor... muita dor.

É estranho, sentir uma dor que não se deve sentir, que não se quer sentir. Ele tem essa consciência, mas mesmo assim, mesmo feliz pela avó, se sente completamente desamparado... viúvo... triste. À essa altura João Luis mal consegue se manter em pé. Sente as pernas bambas e só persevera erguido porque sua mão, amiga, surrupia um apoio na cabeça da estátua de madeira em forma de Buda.

- Então, você empresta o carro? – diz Estela com cara de pedinte inquisidora.

Essa pergunta lhe vem como uma ducha fria que corta a onda repentinamente. Sua tia havia feito o mais perdido dos discursos... um discurso que nunca foi ouvido... lhe faltou raciocínio, a pergunta não estava no contexto de sua avó. Tudo bem, ele não prestou atenção a uma palavra que ela tenha dito, mas já sabia o que iria ouvir...

- Como é? – Perguntou estupidamente entendido.

- O carro, pra eu levar a sua avó pra Teresópolis amanhã, você empresta ou não? Ela quer muito viajar, Jonny. – Respondeu ela como que diz a verdade.

Uns instantes de freio... de inércia. E sem dizer nada, João Luis vai calmamente até a escrivaninha, pega a chave do carro a entrega à tia. Ela a pega, agradece como quem critica e sai sem nem dar tchau.

Ao ver a porta se fechar, sentiu o alívio dolorido mais lancinante que já se viu. A culpa mais redentora de todas. E ali, sem nem dizer por que, a luz se apaga e uma música suave começa a tocar. João Luis, sem nem sair de frente da porta, deita no chão. Brinca de pique-esconde com a vida. Deita pra ver se não cai. Sorri pra ver se não chora.

A dor de cabeça não foi embora.






em memória de Jacyra Tomé

sexta-feira, maio 05, 2006


O Propriamente dito ( uma novela em três atos)

Primeiro Ato: Jacinto.

“E se somos Severinos iguais em tudo na vida
Morremos de morte igual, mesma morte severina”
( João Cabral de Mello Neto)


Quem era mais meio dia e meia do que Jactinto?
Absolutamente ninguém abaixo dos céus ou acima dos mesmos.
Olhos saltados,coluna envergada e cabelos revoltos,figura fácil.
Alvo de caricaturas que as vezes chegavam a perder o seu valor hiperbólico, mediante a tamanha agressividade que suas feições possuiam .
Falava acumulando saliva nas periferias da boca...e que boca, de todas a mais trêmula e cerrada feito assistente de mágico.

Dava aula, e antes de mais nada naquela tarde,dava aula.
Era um professor nada enfadonho se você gostasse de filosofia,mas para os que não gostavam, o homem era um abutre grasnante.
Fora morto de mais de 29 vezes no caderno de um moleque de cabelos crespos, que quando não ficava desenhando, apenas dormia chegando ao extremo de babar.
Jacinto detestava este menino,dava aula para Jander desde sua sétima série, e acompanhara todos os estragos que a puberdade fincara no gorducho que segundo Jacinto,tinha rosto no feitio exato de um sapo-boi, nunca vira um sapo-boi mas jurava por Deus que era exatamente daquele jeito.
O menino era de São paulo,e apesar dos anos no Rio,fez questão de não perder o sotaque...terrível!
Jacinto detestava ouvir a voz de Jander carregada de ares rurais dos confis de São paulo, tanto quanto Jander detestava ouvir as aulas monótonas sobre um bando de gregos mortos, entre um bando de outras coisas que aquele professor sempre dizia com aquela voz calma e enjoada.

A tarde era de chuva fina,na boca de Jacinto um gosto do café da sala dos professores, nos olhos de Jacinto,o ódio pela sala dos alunos.
Abriu a porta, e era o mesmo “fim- dos- dias” que acontecia em todos os fins dos dias em que dava aula para aqueles...asquerosos.
Respirou fundo e colocou todo o seu corpo dentro da monstruosidade que se valia no recinto,era gordo e tinha dificuldade de passar pelo espaço estreito,algumas risadas,sempre tinham algumas risadas...
Foi ao quadro e apagou um desenho que provavelmente simbolisava ele ,virou os olhos para cima, selvagens.( Assim pensou)
Deu as costas para a turma barulhenta e escrevia no quadro,sempre odiou este colégio,achava que ficava cada vez pior, semana retrasada mesmo uma menina fora espancada perto do bebedouro...
Se o diretor se preocupasse menos com o( Vrmmmm...)
Um tremelique inadequado incomoda sua perna esquerda,era o celular Jacinto tinha se esquecido que possuía um celular, ninguém nunca ligava mesmo.
Atende com uma certa impaciência a sua mãe,a mulher fora assaltada,já estava velha e fora roubada na frente do Banco do Brasil, o rosto de Jacinto se enche de terror do mais puro e seco, todos os alunos acham graça, o gordo se levanta e começa a fazer imitações para os outros alunos(era bastante popular), do rosto de Jacinto apavorado,o desgraçado ria no meio de cada tentativa de imitação sem o menor profissionalismo cênico e todos os aluno gritavam e babavam de rir.
O flavor de vômito rodopiava na garganta de Jacinto...puxa! Logo com Jacinto, o sujeito mais meio-dia e meio que já se fez, o mais previsível e pressão 12 por 8 já nascido de mãe humana, tinha sempre tudo tão organizado e programado, que tinha suas frases feitas e falava “propriamente dito” sempre em que era muito pressionado...
Sua paciência caia no chão como se houvessem retirado o cinto que segurava sua calça.Os dois porcento de sabedoria que ainda lhe restavam,o fizera olhar para Jander,tentando desfarçar o ódio e dizer:
__ Rapazinho....por favor sente-se e fique quieto__
Sua mãe chorava ao telefone e gaguejava, o gordo não se sentava.
__ Jander ! _ Que espécie de nome era Jander?

Jacinto sentia-se quente até que o gordo se levantou, e com aquele sotaque medíocre, o garoto foi capaz de imitar as ordens de Jacinto e levando um estojo ao ouvido, fingiu falar ao telefone...o telefone espatifou-se no chão, quem concentrasse os ouvidos, poderia ouvir a voz da velha tagarelando sozinha, mas naquela sala,não havia quem pudesse concentrar os ouvidos, tendo os olhos tão ocupados, vendo o bocó do professor de filosofia enfiando todos os gizes do quadro goela abaixo do gordinho popular( era bastante popular) e dando insistentes golpes com o apagador no nariz dele fazendo sangrar, sangue de verdade, quente e intenso.
Ninguém ria.

Jander correu até a sala da diretoria suando como sua um gordo e sangrando com sangra um gordo que levou golpes de apagador nas fuças.
Jacinto foi atrás só porque sabia que tinha mesmo que ir, fazer o que?!
Jácinto seguia todo o corredor sem correr( um paradoxo com sua mente)
Como já esperava,na sala do diretor, Jacinto ouviu umas palavras em Paulistêis e via o gordo em processo de liquefação...que cena irritante e traumatizante.Conseguia ser ainda pior do que a cena do diretor ,que era quase um anão,se impondo como uma besta-fera de peito estufado e tudo mais, urrando aos quatro cantos da mini-sala _ Jacinto está demitido!_

...Pegou um pequeno punhado de dinheiro que recebera e com as mesmas mãos,pegou toda a sua cabeça, e com as mesmas mãos, agarrou todo o mundo...figura bonita de se ver ; um homem parado na porta de um colégio com as duas mãos abraçando a cabeça molhada como todo o corpo, que ficava ainda mais molhado a cada segundo, pois chovia.
Dentro de sua cabeça a imagem do gordo o imitando e depois chorando,só fazia rodopiar como uma lembrança tão necessária quanto respiração...sotaque paulista...odiava, muito.
E agora o que iria fazer para pagar as contas, apesar de odiar o colégio,era o único que conhecia que tinha aula de filosofia e...sotaque paulista...odiava tanto!!
Respirou um pouco de chuva e desgraça, e resolvera ir até a igreja...ia rezar sabem,rezar.



Segundo Ato: Tales de Mileto.

Um cara ...como eu diria bem? Café!
Um cara café, não tomava chá, nunca...achava que chá era além de um nome muito bobo, uma bebida muito boba, era só água quente e ervas...já o café não, café era Café por si só, com ou sem água.
Tales de Mileto, tinha esse nome em homenagem ao filósofo, nunca se interessara muito em saber quem era o tal , mas sabia que seja lá quem fosse, era um sujeito Café, isso sem sombra de dúvidas.(continua...)

quinta-feira, maio 04, 2006



"O homem que nasceu velho"

Quando Haroldo nasceu, ele devia ter uns 76 anos, configurando um caso raro de bebê idoso. O primeiro som emitido por ele não foi um choro mas um gemido de dor, fruto de uma pontada no coração. Antes mesmo de notar se era menino ou menina, o médico constatou: “É velho”. De fato, ele tinha rugas, reumatismo e murmurava coisas enfadonhas a respeito de política. Por isso lhe deram esse nome, Haroldo, que só dariam mesmo a um bebê velho. Ele reclamou, é claro; disse que aquele nome era um exemplo típico de descaso com o idoso. Mas pouco ligaram, como pouco ligam para o que dizem os velhos. O tempo foi passando e, na creche, Haroldo tentava insistentemente convencer os alunos a largarem as massinhas e a jogarem sueca. Aos 6 anos lia o Jornal do Commercio e sofria do coração. Sua saúde, aliás, era um problema: tinha viroses, úlceras e pontadas sem fim. Até que pouco a pouco, seus problemas de saúde foram sumindo. Aos 12 anos ganhava corpo e suas rugas, misteriosamente, foram desaparecendo. Procurou um médico, que não teve dúvida. Disse-lhe:
Haroldo, você está rejuvenescendo.
Como, se eu nunca fui jovem? retrucou.
Bom, nesse caso, então, você está juvenescendo. Parabéns.
Sem saber se aquilo era bom ou ruim, Haroldo foi vivendo sua vida. E logo percebeu que não eram apenas as rugas que sumiam: passou a ver e ouvir melhor. Sua coluna, antes curvada, escolíotica, foi aos poucos se reerguendo e aos vinte já estava quase ereta. E não era a única parte do seu corpo que se erigia, pois Haroldo descobria também aos poucos nascer nele um sentimento inédito: o desejo. Procurou uma parceira, mas poucas eram as mulheres de 20 anos que se interessariam por aquele sujeito grisalho e resmungão. Passou então a trabalhar desesperadamente, dia e noite, para passar o tempo. Ganhou uma boa soma de dinheiro e aos 30 e poucos já reunia então uma pequena fortuna. Aí então (e só aí) se identificava com as pessoas da sua idade. Mas esse momento durou pouco, pois seus colegas logo começaram a preferir uma vida mais tranqüila e reservada enquanto ele começava a preferir sair à noite à trabalhar no escritório. E assim acabou gastando sua fortuna com mulheres, bebida e drogas. Aos cinqüenta e poucos anos levava uma vida totalmente libertina e gozava de saúde invejável. Até que, entrando na casa dos 60, passou a ganhar certo desconforto com as mulheres e com a vida, se sentindo mal dentro de seu próprio corpo e optando pelo sexo manual como forma de dar vazão a um desejo ainda latente. Mas esses pensamentos espúrios foram aos poucos sumindo de sua mente de tal forma que aos 65 havia ganhado certa ingenuidade, aliada a uma enorme energia. Se sentia cada vez mais disposto para brincar, rir e chorar, especialmente aos berros. Tornou-se logo dependente das pessoas à sua volta. Aos setenta já não fazia nada sozinho: já não sabia mais ler, aos poucos desaprendia a falar e logo não conseguia mais andar. E, assim, em seu choro final, viu sua vida passar na frente dos seus olhos, como um filme, e teve a súbita impressão que alguém havia apertado o rewind.

quarta-feira, maio 03, 2006




Primeiramente como "Webmaster" do Blog, gostaria de pedir desculpas pelos erros de programação apresentados até agora... Meu computador principal queimou e estou apenas com o lap, onde não contenho as informações do blog, ou seja... De qualquer maneira, gostaria de agradecer a todos que tem acessado o blog diariamente, espero que divulguem e que cada vez mais leitores se juntem a vocês... Divulguem! Obrigado!

SOBRE O TÉDIO

Hoje... Quarta. Ontem... Terça. O amanhã sou eu quem faço, mesmo sem querer essa responsabilidade toda. Nem todo dia é assim. Mas esse passou dessa forma... Enfadonho.

Um dia de sol, longe da praia. Nada se faz onde meu corpo encontra-se estirado, além de uns “reviros” alternados. Telefonemas bem cedinho, confudem sentimentos e explodem saudades, mas se calam em mais uma virada de almofada. O meu dia começa no meio do dia dos outros.

Levantar dá no mesmo, talvez um pouco menos fantástico do que o que se passa dentro de minha cabeça enquanto durmo... Mas levanto. Ando pela casa vazia. Nada acontece. A rua mal me atrapalha com seus barulhos. É Cedo? Não, é Domingo. Não. É pior... É dia normal com cara de domingo. Nada pior do que o domingo querendo dar as caras onde não é chamado. Ele adora fazer isso. Arrumo o quarto. Por mim? Não, por tédio. O Tédio organiza minhas camisas. O Tédio passa pano. O Tédio dobra a manga. O Tédio separa cores.

O computador tem muita informação, a TV muita desinformação, o livro, formação. Tudo é demais pra mim, inclusive o de menos. Na vontade de tudo, faço nada. Mais telefonemas. Agora perturbam, trazendo a mim realidades que não são minhas. Um mundo amado, mas muito chato. Quero companhia amiga, porém calada. Preciso de olhares, sorrisos. Sobrevivo deles. Querer não é poder por isso vivo tentando.

Assim o dia passa. Algumas distrações que não levam a nada, me levam pra longe. Sem saber se quero ir, acabo indo. Quando vou ver já foi... Minha vida fica melhor figurando outras vidas, do que protagonizando ela mesma. A Libertação fica na escrita. O Meu dia termina muito depois do dia dos outros.

terça-feira, maio 02, 2006




Em meio à chuva de pétalas no centro da cidade, ele parou diante da massa em procissão e sentiu-se acuado. Foi quando a infância passou às suas costas.
Jesus Cristo de gesso! Gritou e viu um garoto de cinco anos ajoelhado frente à uma imagem de santo. Por São Judas Tadeu de gesso sentiu o carinho das mãos da avó, as mãos que descascavam maçãs saborosas em sobremesa, as mãos que no almoço do neto partiam o bife em pedaços pequenos,que às seis da tarde rezavam uma Ave-Maria de gesso, mãos que roçaram no Serro, mãos que serraram na roça, que eram lindas ficaram velhas, que eram velhas ficaram mortas. A procissão passa e leva tudo pela Avenida Presidente Vargas. Ele não. Ele fica. Ele sempre fica.

O papel dele na história é ficar parado e intenso diante dos fatos e das circunstâncias. É verdade que não sabe o que está fazendo num domingo católico em frente ao Campo do Santana, não sabe nem como foi parar lá,
mas ele está parado diante da massa em procissão debaixo da chuva de pétalas de rosas, ele odeia pétalas de rosas mas ainda não sabe, nem vai ter tempo de saber porque é uma personagem de um fragmento que começa segundos antes do plot point mais “puta que pariu” que já escrevi pois não leva a nenhum desfecho, nem era do meu interesse que levasse, e sim que já já ele lembrasse da avó e dos santos de gesso novamente até que a procissão passasse levando tudo só deixando ele.


Não sabe estar condenado a viver com um únicO e enfadonho fragmento de memória:



Infância



Melhor assim, vai doer menos.

segunda-feira, maio 01, 2006



NÃO POSTOU POR ESQUECIMENTO.


Web Counter