
O Propriamente dito ( uma novela em três atos)
Primeiro Ato: Jacinto.
“E se somos Severinos iguais em tudo na vida
Morremos de morte igual, mesma morte severina”
( João Cabral de Mello Neto)
Quem era mais meio dia e meia do que Jactinto?
Absolutamente ninguém abaixo dos céus ou acima dos mesmos.
Olhos saltados,coluna envergada e cabelos revoltos,figura fácil.
Alvo de caricaturas que as vezes chegavam a perder o seu valor hiperbólico, mediante a tamanha agressividade que suas feições possuiam .
Falava acumulando saliva nas periferias da boca...e que boca, de todas a mais trêmula e cerrada feito assistente de mágico.
Dava aula, e antes de mais nada naquela tarde,dava aula.
Era um professor nada enfadonho se você gostasse de filosofia,mas para os que não gostavam, o homem era um abutre grasnante.
Fora morto de mais de 29 vezes no caderno de um moleque de cabelos crespos, que quando não ficava desenhando, apenas dormia chegando ao extremo de babar.
Jacinto detestava este menino,dava aula para Jander desde sua sétima série, e acompanhara todos os estragos que a puberdade fincara no gorducho que segundo Jacinto,tinha rosto no feitio exato de um sapo-boi, nunca vira um sapo-boi mas jurava por Deus que era exatamente daquele jeito.
O menino era de São paulo,e apesar dos anos no Rio,fez questão de não perder o sotaque...terrível!
Jacinto detestava ouvir a voz de Jander carregada de ares rurais dos confis de São paulo, tanto quanto Jander detestava ouvir as aulas monótonas sobre um bando de gregos mortos, entre um bando de outras coisas que aquele professor sempre dizia com aquela voz calma e enjoada.
A tarde era de chuva fina,na boca de Jacinto um gosto do café da sala dos professores, nos olhos de Jacinto,o ódio pela sala dos alunos.
Abriu a porta, e era o mesmo “fim- dos- dias” que acontecia em todos os fins dos dias em que dava aula para aqueles...asquerosos.
Respirou fundo e colocou todo o seu corpo dentro da monstruosidade que se valia no recinto,era gordo e tinha dificuldade de passar pelo espaço estreito,algumas risadas,sempre tinham algumas risadas...
Foi ao quadro e apagou um desenho que provavelmente simbolisava ele ,virou os olhos para cima, selvagens.( Assim pensou)
Deu as costas para a turma barulhenta e escrevia no quadro,sempre odiou este colégio,achava que ficava cada vez pior, semana retrasada mesmo uma menina fora espancada perto do bebedouro...
Se o diretor se preocupasse menos com o( Vrmmmm...)
Um tremelique inadequado incomoda sua perna esquerda,era o celular Jacinto tinha se esquecido que possuía um celular, ninguém nunca ligava mesmo.
Atende com uma certa impaciência a sua mãe,a mulher fora assaltada,já estava velha e fora roubada na frente do Banco do Brasil, o rosto de Jacinto se enche de terror do mais puro e seco, todos os alunos acham graça, o gordo se levanta e começa a fazer imitações para os outros alunos(era bastante popular), do rosto de Jacinto apavorado,o desgraçado ria no meio de cada tentativa de imitação sem o menor profissionalismo cênico e todos os aluno gritavam e babavam de rir.
O flavor de vômito rodopiava na garganta de Jacinto...puxa! Logo com Jacinto, o sujeito mais meio-dia e meio que já se fez, o mais previsível e pressão 12 por 8 já nascido de mãe humana, tinha sempre tudo tão organizado e programado, que tinha suas frases feitas e falava “propriamente dito” sempre em que era muito pressionado...
Sua paciência caia no chão como se houvessem retirado o cinto que segurava sua calça.Os dois porcento de sabedoria que ainda lhe restavam,o fizera olhar para Jander,tentando desfarçar o ódio e dizer:
__ Rapazinho....por favor sente-se e fique quieto__
Sua mãe chorava ao telefone e gaguejava, o gordo não se sentava.
__ Jander ! _ Que espécie de nome era Jander?
Jacinto sentia-se quente até que o gordo se levantou, e com aquele sotaque medíocre, o garoto foi capaz de imitar as ordens de Jacinto e levando um estojo ao ouvido, fingiu falar ao telefone...o telefone espatifou-se no chão, quem concentrasse os ouvidos, poderia ouvir a voz da velha tagarelando sozinha, mas naquela sala,não havia quem pudesse concentrar os ouvidos, tendo os olhos tão ocupados, vendo o bocó do professor de filosofia enfiando todos os gizes do quadro goela abaixo do gordinho popular( era bastante popular) e dando insistentes golpes com o apagador no nariz dele fazendo sangrar, sangue de verdade, quente e intenso.
Ninguém ria.
Jander correu até a sala da diretoria suando como sua um gordo e sangrando com sangra um gordo que levou golpes de apagador nas fuças.
Jacinto foi atrás só porque sabia que tinha mesmo que ir, fazer o que?!
Jácinto seguia todo o corredor sem correr( um paradoxo com sua mente)
Como já esperava,na sala do diretor, Jacinto ouviu umas palavras em Paulistêis e via o gordo em processo de liquefação...que cena irritante e traumatizante.Conseguia ser ainda pior do que a cena do diretor ,que era quase um anão,se impondo como uma besta-fera de peito estufado e tudo mais, urrando aos quatro cantos da mini-sala _ Jacinto está demitido!_
...Pegou um pequeno punhado de dinheiro que recebera e com as mesmas mãos,pegou toda a sua cabeça, e com as mesmas mãos, agarrou todo o mundo...figura bonita de se ver ; um homem parado na porta de um colégio com as duas mãos abraçando a cabeça molhada como todo o corpo, que ficava ainda mais molhado a cada segundo, pois chovia.
Dentro de sua cabeça a imagem do gordo o imitando e depois chorando,só fazia rodopiar como uma lembrança tão necessária quanto respiração...sotaque paulista...odiava, muito.
E agora o que iria fazer para pagar as contas, apesar de odiar o colégio,era o único que conhecia que tinha aula de filosofia e...sotaque paulista...odiava tanto!!
Respirou um pouco de chuva e desgraça, e resolvera ir até a igreja...ia rezar sabem,rezar.
Segundo Ato: Tales de Mileto.
Um cara ...como eu diria bem? Café!
Um cara café, não tomava chá, nunca...achava que chá era além de um nome muito bobo, uma bebida muito boba, era só água quente e ervas...já o café não, café era Café por si só, com ou sem água.
Tales de Mileto, tinha esse nome em homenagem ao filósofo, nunca se interessara muito em saber quem era o tal , mas sabia que seja lá quem fosse, era um sujeito Café, isso sem sombra de dúvidas.(continua...)