
Atrás de ti, rosa.
Digamos que alguém compre um terno de segunda mão num brechó que também vende molduras e livros escolares usados. Digamos também que uma das magas do paletó esteja costurada dentro do bolso, já que seu antigo dono tinha um braço só (pode ser que ele tenha perdido o braço trabalhando numa mina, mas pode ser também que ele tenha perdido o braço numa aposta.).
Agora digamos que essa pessoa que comprou o terno, e que acabou de descosturar a manga de dentro do bolso, encontra um pedaço de papel nesse bolso e que, nesse papel, esta escrito o seguinte:
“ e qual das torturas redimirá
a tua tristeza e a Capadócia?”
E, finalmente, digamos que essa pessoa que acaba de gastar vinte reais num terno e num pedaço rasgado de papel é ninguém mais, ninguém menos, que você. Logo você, que entrou lá procurando uma edição em boas condições do livro do Gustav Tomski que tem o conto Por trás da tua roseira (ou Atrás de ti, rosa numa outra tradução), aquele em que o cara se apaixona por um vulto que vê à noite no jardim e, mesmo descobrindo na manhã seguinte que se tratava de uma roseira, continua apaixonado e pula da varanda sobre as flores.
Você está sentado no ônibus há um bom tempo. Os seus pensamentos oscilam entre por que uma nuvem preta em cima do Leblon sempre me dá sono e o que que acontecia mesmo quando o cara pulava na roseira. Você encosta a cabeça no vidro e deixa os buracos na estrada e a violência do motorista embalarem o seu cansaço. O frio te obriga a esquentar as mãos e você as esconde nos bolsos do paletó – é aí que se lembra que no forro do bolso recém-descosturado tem aquele papel que diz:
“ e qual das torturas redimirá
a tua tristeza e a Capadócia?”
Você se chama Tomás e Tomás tira o papel de dentro do bolso e examina-o com cuidado. É obviamente um canto de pagina de livro em que alguém copiou os dois versos e depois rasgou. Tomás levanta o papel e observa que a caligrafia era como a das meninas na época em que estava na escola: aquela coleção de letras de fôrma bem desenhadinhas, com cuidado e caprichando especialmente nos os e nos is.
“Grande São Jorge da Capadócia...” disse um cara do seu lado, fazendo Tomás perder a harmonia com o ônibus e acabar batendo a cabeça contra o vidro.
“Pô, mal ae, te assustei né...” Tomás olha para o cara com certo tédio.
“Eu só tava falando do papelzinho aí...Capadócia...é o São Jorge da Capadócia né...” Tomás continua quieto, sonolento, olhando para o rapaz.
O cara volta a olhar pra frente e Tomás fica aliviado que a conversa acabou.
“Historia triste essa do São Jorge da Capadócia...” continua o cara, que não tinha virado para olhar pra frente, mas para relembrar o passado.“São Jorge e o dragão...ele morreu degolado, sabia né...”
Tomás acha graça. “Quem? Jorge ou o dragão?”
O homem responde com a mesma descontraída seriedade. “Acho que os dois né...mas eu tava falando do São Jorge, guerreiro de deus...morreu degolado pelo imperador da Capadócia...seu Diocleciano...”
Se o terno não estivesse começando a incomodar o seu pescoço, Tomás teria se dado ao trabalho de prestar alguma atenção nas palavras desse preto crente. Começa a chover ruidosamente do outro lado da janela. O papel continua entre seus dedos.
“Qual o teu nome?” pergunta pro cara.
“Anderson” você responde, porque o seu nome é Anderson e você gosta de lembrar que seu pai se chama Ander e que son é filho em estrangeiro.
Torcendo pra que esse jovem emburrado olhando pela janela pare de te tratar mal, você pergunta de volta “E o teu?”
“Tomás” é a resposta seca que ele dá.
“Você acredita em Deus, Tomás?”
Ele não responde, fica te olhando com cara de quem tem nojo da pergunta. Você ignora e continua contando sobre a morte do santo. “São Jorge morreu porque se negou a renunciar-se de sua fé em nosso senhor Jesus Cristo, né. Ele era o melhor dos guerreiros do exército de Diocleciano, mas o Imperador não teve piedade e, mesmo vendo todos os milagres do Senhor, mandou matar o pobre coitado, né.”
Tomás volta a olhar para a janela e o papel descansa apertado na mão dele. Volta e meia você consegue ler o que está escrito.
“ e qual das torturas redimirá
a tua tristeza e a Capadócia?”
Você não sabe como dizer para esse moleque mal-educado como o que ele escreveu é bonito. Por outro lado, ele não parece o tipo que escreve, né. Quem sabe não foi a garota dele. As meninas são mais sensível pra essas coisas de poesia e do divino, né. A chuva batendo no ônibus e as luzes do trânsito te trazem uma tristeza branda mas pungente e você logo sente que se não continuar falando vai acabar chorando de melancolia.
“São Jorge foi morto porque acreditava em Deus né...”
“Pois é...”diz Tomás, desinteressado.
“Foi a sua namorada que escreveu isso?”
“E que porra de pergunta é essa?”
Você percebe que irritou o rapaz. De fato foi uma pergunta estranha. Você tenta consertar mudando de assunto.
“Ninguém redimirá a tristeza de Jorge e de todo o reino da Capadócia com o que o Imperador fez né...”
Tomás te olha agressivamente, querendo claramente terminar a conversa.
“E quem disse que a tristeza é dele? Pode ser do outro cara, o Imperador Diocesar ae...”
Anderson desvia o olhar. O ônibus fecha um outro carro enquanto o barulho da chuva atesta a gravidade. Tomás encosta a cabeça no vidro de novo – o sono foi embora e deixou somente a irritação de perceber que o terno que comprou fede muito – e continua tentando lembrar como que terminava aquele conto do G.Tomski...tinha algo a ver com os espinhos, ou não tinha. Anderson também está perdido em pensamentos, sem saber se a tristeza pertence a São Jorge, Diocleciano ou a ele mesmo.
Digamos que alguém ache a edição do tal livro e constate que o conto Por trás de tua roseira não existe. Digamos também que numa das páginas desse livro – todo anotado e comentado pela última proprietária – um dos cantos inferiores da folha está rasgado. Digamos, por fim, que esse escritor G.T. perdeu um dos braços numa aposta que fez com um general polonês quando os dois estavam bêbados, tentando se proteger do frio, da chuva forte e da tristeza.
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“ E eu – mal de não consentir em nenhum afirmar das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo, num espairecer de contentamento, deixava de pensar.”
Grande Sertão: Veredas