sábado, agosto 26, 2006





pa(r)to.

O sinal muda pra vermelho e eu me lembro de que estou levando a minha mulher no medico pela quinta vez no mês. Devíamos estar indo de ônibus para economizar alguns trocados, já que o médico custa uma fortuna.
O doutor nos recebe com um sorriso e um bigode firme, fala com uma doçura incerta que seremos os felizes pais de um pato. Minha mulher mal pode conter as lágrimas. Eu penso em se será menino ou menina.

As semanas seguintes decorrem entre pesquisas em enciclopédias e livros de ornitologia. Enfim concordamos com Donaldo, se for pato, e Luiza, se for pata. Aprendo palavras como ovovivíparo e anseriforme e explico para as visitas a diferença entre um pato-real e um pato-ferrão. Escuto minha mulher repetindo para as amigas que será um parto tranqüilo, pois o ovo não é maior do que um punho fechado.

Hoje as contrações estão muito fortes e nós percebemos que o bebe vai nascer. A mala já esta pronta e enquanto descemos no elevador tudo o que penso é em pegar um ônibus e economizar alguns trocados.

quinta-feira, agosto 24, 2006




...é só por isso que eu não ouço mais samba.






Mi bemol.
De repente.
Mi bemol.

Assim sem explicações maiores, toda aquela noite era tocada em Mi bemol, e arrastava a madrugada leve e glamurosa como as madrugadas se arrastam pelos becos da boemia, e pelos becos dos corações maltrapilhos.
Pintores,paredes , van goghs.
Farmacêuticos, farmácias,donenças.
Tudo sem exceção soava Mi bemol.
As falas , conversas, lamentos.
Mi bemol,Mi bemol, Mi bemol.
Que amarga surpresa do mundo se Mi bemol tem gosto de tristeza , melancolia e neblinas em geral.

O grupo de música que tocava, não conseguiu seguir...deram espaço aos sambas de uma só nota que preenchiam o salão dos sorrisos que se costuraram como que ao acaso no rosto de algumas pessoas assim que os primeiros batuques se fizeram presentes...

A certa altura ,virei me a um sujeito que me era um ombro gigantesco e apenas disse que gostaria de nascer sem coração, pra ver se assim resolvia os problemas...falei isto em Mi bemol como não poderia diferente ser naquela maldita madrugada unínota.

Ele entendeu me como sempre, só que desta vez em Mi bemol.
Sambas e mais sambas...
Até que como do fundo de uma alma lamaçenta e podre , a visão rasga meus olhos e faz com que minha saliva desça rascante e quase que pelos olhos.
Era uma daquelas em que se sente que se fossemos ovíparos, exerceriamos esta função pela boca.

A morena sambava...em Sol Menor.
Como se isto fosse correto,bem talvez pra ela fosse mas nunca seria para mim um escravo das tendências totalitaristas do Mi bemol.
Todos em Mi bemol, por que ela sambaria de forma tão Sol menor se mesmo a música que embalava seu corpo estava em Mi bemol, se eu estava em Mi bemol...se a minha dor agora tocava um Mi bemol, o mais rígido e duro já pensado por qualquer piano...se é que piano pensa e não só obedesce a dedos.
O Sol Menor, somado ao Mi bemol constituiram a canção mais triste que existia e que era ritmizada pelo toque insistente do meu coração...que já deveria ter entendido a muito tempo que a música que ele toca a ninguém agrada.
Entender que o batuque que meu peito faz, jamais alcançará a beleza de um samba... e que talvez por isso deveria parar de insistir e silenciar-me um dia.
Talvez eu devesse cancelar o samba penso eu ao ouvir a canção cheia de pesar que as patadas no chão da morena lançam diretamente ao meu peito fazendo as poeiras do mundo se elevarem...não só as do mundo como as minhas prórpias poeiras.

Tremo.

Ela nunca olhou para mim, e sobre todas as palavras que eu já tenha lhe dito, nenhuma delas realmente foi entendida já que eu falei em Mi bemol e toda a vida a Morena sempre se declarou Sol sustenido e agora depois de tanto me acostumado com o sustenido dela, ela me samba em Sol menor...

Nossa união só poderia resultar no samba mais triste e insólito de todos, somos notas com baixa harmoniosidade, e mesmo que encaichando num contexto, meu peito toca um samba diferente do dela.
Vou deixar que ela se guie pelo seu samba desagradável...
Quando cantarem- no perto de mim eu tapo os ouvidos.

Não ouçam meu samba!

FIM

quarta-feira, agosto 23, 2006



SOBRE MEU GATO

PUTA QUE O PARIU
MEU GATO PÔS UM OVO
MEU GATO NÃO É OVÍPARO
EU PERDI A RIMA
E A HORA DE POSTAR NO BLOG

terça-feira, agosto 22, 2006



Olá amigos leitores.
São 20:28.
Primeiramente gostaria de me desculpar por não ter postado na semana passada. Não consegui por causa da demanda de trabalho: estou lançando o filme O MAIOR AMOR DO MUNDO e a carga de trabalho tem sido alta. Também não vou usar a palvra da semana pois não consegui lê-la do meu Macintosh. Nesse momento estou sentado à janela de um hotel em Salvador de frente para o mar sem pescadores ou jangadas. Ainda não sei postar fotos, senão as postaria em lugar de rápidas palavras. Conheci o Pelourinho e comi muito bem. Como todo turista, comprei colares dos filhos de Gandhi de negros, os mesmos que construiram todas aquelas igrejas. Foi uma passagem rápida, amanhã já embarco para Brasília para mais uma pré-estréia do filme.
Ontem estive em Recife, falei com a madrasta do Queiroga mas nem ela e nem o pai dele puderam ir. Soube pelo Wilker que o avô do Rafa, Luís Queiroga, era uma grande comediante do Recife. Não é a toa que o cara é assim, tá no sangue. Fiquei muito feliz de termos ganho o prêmio no Noites Cômicas no domingo que se passou, depois da nossa fraca apresentação de sábado. Engraçado a minha relação com esse cara... As vezes acho que somos muito diferentes, outras vezes bem parecidos, mas o fato é que somos realmente muito diferentes mesmo.
Antes de embarcar no Galeão me chamou atenção um engraxate pequeno, negro. Pena que não sei postar foto, pois tirei uma foto dele até ver e ficar puto comigo. Depois, me explicou que semana passada um reporter tirou foto deles no jornal colocou na manchete: "menores infratores trabalham no aeroporto". Questiona: " Que infração que eu to fazendo?". Eu sinceramente não sei, não posso responder, só digo o que me motivou a tirar a foto dele: vê-lo tão pequeno diante das pessoas e da arquitetura, e ao mesmo tempo tão grande, de rosto e fala grave. Ofereco-lhe o café da manhã, onde me explica que naquele dia é seu aniversário, mas que não anda com a carteira de identidade pois já rodou uma vez com ela e se pegarem ele de novo vai pro Padre Severino e a mãe presa. Quando ele me conta essas histórias, só lembro do aniversário quando ele já foi embora com a barriga menos vazia. Conto também da minha tataravó, escrava; dos meus bisavós, índios; tentando diminuir a fronteira entre nós dois, e até tenho êxito por alguns minutos. Até ele ir embora.
Amanhã vou a Brasília. Estou conhecendo o Brasil de cima e percebo o quanto ainda somos vulneráveis a nós mesmos. País abandonado, desabitado, que obrigou e obriga a população rural a migrar para o meio urbano para virar engraxate, marceneiro, ladrão.
Décadas atrás, oitenta por cento da população vivia no campo. Hoje é contrário. O meio escasso, roubado do povo original e dos mestiços que resultaram da combinação com o dominador, obrigam populações a migrarem para outro meio que o ameaça ainda mais com a falta de emprego, com a Força-Tarefa Nacional e com o Exército nas ruas.
Toca o telefone, e lá vou eu para mais uma pré-estréia bem sucedida dO MAIOR AMOR DO MUNDO.
Mas nem venha com essa de que Deus é Brasileiro!

segunda-feira, agosto 21, 2006

Sim.

Sim. Na tal rua de sempre, como de hábito, caminhava contida pela manhã, a Sra. Ovovípara.
Ela e suas sacolas. Tantas delas. Incontáveis sacolas. No mesmo compasso de sempre, nas quases-manhãs de domingo, Sra. Ovovípara caminhava vagarosamente até a padaria mais próxima de sua casinha branca e com teto. Pois é importante registrar: havia um teto!
Rugosa, prostrava-se diante do balcão e perguntava com toda a leveza de uma sutil senhora inglesa não-inglesa: "E então? Pareço menos medonha do que sempre?"
Os rapazes riam risos extensos e saborosos. Alguns ficavam com um pouco de dó, é verdade... Mas a velha senhora ajeitava seus cabelos de maneira mimétrica e sorria um sorriso de redenção... E fazia todos se sentirem confortáveis. "Como ela é previsivelmente agradável!" - diziam alguns atendentes vendo-a sair com a sacola de pães, enquadrada pela porta de vidro do estabelecimento.

"Tentemos algo em linha. Algo que não te faça suar tanto."

domingo, agosto 20, 2006







De cócoras não durmo


Hoje chorei pensando em ti. Ultimamente tenho sentido vontade de chorar, mas de uma maneira estranha. Quando inspiro, queima. Parece que há uma guerra dentro do meu peito... e algo que eu só saberia chamar de fumaça sobe pela garganta, passa pela boca e nariz e se instala atrás dos olhos criando uma pequena pressão e ardência.
Alguns velhos de pensamento atrasado ousam chamar isso de saudades, mas é maior do que isso, é mais... mais intenso. Já senti saudades antes, não é assim.
É. Eu acho que eu realmente não sei distinguir os sentimentos. Onde já se viu uma pessoa confundir uma mesma sensação com saudade, medo, culpa e amor? Por falar nisso, você quer parar de aparecer no rosto das pessoas, eu não consigo ter uma conversa direito com ninguém que você vem e atrapalha!...
Eu acabei de imaginar você rindo dessa piada... tua risada é tão doce. Cada vez que ouço você rir é como se comece uma uva.
Eu daria tudo pra saber quem você é. U só consigo pensar em sentar do teu lado, segurar na tua mão e olhar o pôr-do-sol; Em ficar horas e horas tentando decifrar a cor dos teus olhos; Em pegar todo o calor do meu corpo e dá-lo para ti. E eu nem te conheço. É muito bom ter um querer irresponsável por alguém. Quero-te como se fosse proibido. Quero-te como se fosse uma utopia. Quero-te como se eu não quisesse.
Você só pode ser de mentira, isso não existe! Eu devia ter uma perda, duzentos e cinqüenta mil kilometros não são perda o suficiente. Todo poeta escreve para expurgar um tonel de amor que carrega consigo e não tem a quem dar...

Não consigo mais escrever...


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