
tropeçavas nos astros desastrada
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Miranda foi encontrada morta numa pedra no arpoador. Os testemunhos tanto do casal de jovens que a encontrou quanto do pescador que a carregou de volta pra rua são contraditórios.
Os primeiros juram que, quando chegaram lá, ela já estava estatelada e que – mesmo naquele escuro – dava pra ver o sangue escorrendo pedra abaixo, encontrando o mar. O segundo, por sua vez, tem certeza que ao chegar no lugar em que os dois adolescentes disseram ter encontrado um cadáver, não havia nada, mas que, olhando para cima, pôde ver uma mulher tirando a última peça de roupa e pulando em direção à pedra em que ele estava - por isso que ele moveu o corpo, explica para a polícia, porque achou que ela ainda estava viva, agonizando.
Seja o papo dos dois garotos apenas uma desculpa elaborada para não ter que contar pros pais o que planejavam fazer àquela noite, seja o discurso do pescador apenas uma confusão de presentes e pretéritos, o fato é que todos eles garantem que não repararam nos desenhos.
Distribuídos pelo corpo de Miranda, a perícia encontrou sete desenhos feitos com pincel e Nanquim. Alguns eram só traços infantis, outros mais complexos, alguns tinham legendas e outros estavam desbotados por causa da cerveja que derrubaram no corpo enquanto esse esperava a chegada da policia num quiosque da praia.
Seguem aqui descrições dos sete:
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Sob a legenda “enquanto nós nos deixamos adentrar o nada nos devolve à nós mesmos” encontra-se o desenho sofisticado de uma ponte com um riacho. Apesar da pouca precisão e do tamanho contido da figura, pode-se facilmente perceber que a água do riacho, assim que passa por baixo da ponte, faz uma curva e sobe a ponte e, ao descer, encontra a água que ainda não passou por baixo do arco. O oficial Esteves, primeiro a perceber o desenho impresso na barriga da morta, ressaltou: “A parada é sinistra, tive que chegar tão perto para ler o que estava escrito que senti o cheiro forte da pele da defunta entrar fundo pelo nariz. A parada é muito sinistra.”.
2
O segundo desenho foi encontrado também por Esteves, mas com certa frustração, por não entender do que se tratava. Sem legendas ou maiores detalhes, ele descobriu cinco ou seis traços (uma análise cuidadosa efetuada pelos estagiários do necrotério determinou na verdade sete) rabiscados na planta do pé esquerdo, formando o desenho rudimentar de uma casinha (opinião de seu colega, o oficial Juca Levis) ou o ideograma chinês para ‘beijo nos rochedos’ (de acordo com um estudo duvidoso de Ezra Pound, citado pelo médico legista).
3
Alguns jornais sugerem que se deve a um impulso necrofílico o descobrimento da terceira figura. O enfermeiro Dênis – o acusado – defende-se dizendo que foi enquanto copiava o primeiro desenho, para fins de documentação do caso, que reparou que, entre os pêlos pubianos da moça, havia “uma área mais escura, como se ela não depilasse aquele pedaço da xereca há muito tempo” (tirado da entrevista cedida a revista veja). Munido de “uma verdadeira curiosidade científica e interesse investigativo” (mesma entrevista), Dênis cortou todos os pêlos da área e copiou para seu caderno as novas evidências. Tratava-se do verso “e havia ali também outras vitrolas, sinais e estrelas.”, extraído de um poema de Gabriel Tupinambá. A caligrafia trabalhada entalhava em letras de fôrma as palavras, num trabalho que certamente tomou muito tempo do desenhista – porque ninguém considera que ela mesma tenha tatuado tudo aquilo. Faltou a Dênis explicar porque ele foi visto no dia seguinte com tinta preta nos lábios.
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O quarto desenho, um contorno preciso aplicado no bico de um dos seios, criando três círculos circunscritos como num alvo, não foi motivo de polêmica até uma semana antes do enterro: quando o corpo foi lavado, descobriu-se que não só os três círculos negros eram desenhados, como o próprio bico do peito, que também dissolveu na água. O oficial Esteves, a essas alturas apontado com o principal investigador do caso, absteve-se a um comentário: “cacete.”.
5
Num descuido do médico legista – que deixou o corpo cair da mesa de autópsia – descobriu-se na nuca do cadáver o quinto desenho, claramente um mapa. Apesar de não conter os nomes das ruas nem das praias, era óbvio se tratar de um mapa simplificado de quatro ou cinco quadras que vão da visconde de pirajá até o arpoador (uma análise mais aprofundada dos estagiários do necrotério revelou serem na verdade seis quadras). Um traço nítido e preciso marca um caminho que vai (ou vem, não se sabe) de dentro da cidade até as pedras do arpoador. Apesar das quadras na periferia da figura estarem um pouco borradas por causa da cerveja derramada no cadáver na noite da morte, especialistas tentam localizar a outra ponta do caminho.
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“Os dois primeiros chegarão desapercebidos e chamarão o terceiro. O quarto e o quinto serão acidentes, o sexto (parte borrada do texto), o sétimo – a noite, o (duas linhas de texto ilegível) e é por isso que não se deve ignorar estas palavras: tudo o que há é (ilegível daqui em diante por causa da fatídica cerveja.)” – transcrição oficial. O médico legista ainda discute a possibilidade dessa inscrição, encontrada em espiral em torno de um dos antebraços, ter sido escrita post mortem devido à facilidade com que borrou ao entrar em contato com a bebida. Isso criaria uma janela de aproximadamente três horas entre a queda do corpo e a chegada da polícia em que teria sido pintada a inscrição no braço da falecida.
7
O último desenho, um minúsculo coração desenhado sobre o peito esquerdo da morta, demorou muito a ser encontrado. Graças ao trabalho meticuloso dos estagiários do necrotério, que percorreram o corpo com lentes de aumento, foi possível a identificação da sétima figura, antes entendida como uma pinta qualquer. Apesar de pequena e pouco hermética, foi causadora de grandes polêmicas. “Que pouca vergonha um negócio desses... Não entendi metade dos desenhos, mas esse...uma coisa dessas não pode não... onde já se viu mexer assim com o coração da moça ?” disse uma leitora na enquete realizada por um jornal. Um especialista confirmou que os sete desenhos foram feitos com Nanquim alemão de marca Staedtler, o único que, com o pincel certo, seria capaz de proporcionar a precisão necessária para o desenho. A policia fala agora em assassinato e mantêm na lista de suspeitos Gabriel Tupinambá, autor de uma das inscrições, que foi visto na praia naquela noite e que, de acordo com o cara que derramou a cerveja, foi quem esbarrou nele e também João Marcos Serafim, cujo nome rima com Nanquim.