sábado, maio 20, 2006





tropeçavas nos astros desastrada

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Miranda foi encontrada morta numa pedra no arpoador. Os testemunhos tanto do casal de jovens que a encontrou quanto do pescador que a carregou de volta pra rua são contraditórios.
Os primeiros juram que, quando chegaram lá, ela já estava estatelada e que – mesmo naquele escuro – dava pra ver o sangue escorrendo pedra abaixo, encontrando o mar. O segundo, por sua vez, tem certeza que ao chegar no lugar em que os dois adolescentes disseram ter encontrado um cadáver, não havia nada, mas que, olhando para cima, pôde ver uma mulher tirando a última peça de roupa e pulando em direção à pedra em que ele estava - por isso que ele moveu o corpo, explica para a polícia, porque achou que ela ainda estava viva, agonizando.
Seja o papo dos dois garotos apenas uma desculpa elaborada para não ter que contar pros pais o que planejavam fazer àquela noite, seja o discurso do pescador apenas uma confusão de presentes e pretéritos, o fato é que todos eles garantem que não repararam nos desenhos.

Distribuídos pelo corpo de Miranda, a perícia encontrou sete desenhos feitos com pincel e Nanquim. Alguns eram só traços infantis, outros mais complexos, alguns tinham legendas e outros estavam desbotados por causa da cerveja que derrubaram no corpo enquanto esse esperava a chegada da policia num quiosque da praia.

Seguem aqui descrições dos sete:

1

Sob a legenda “enquanto nós nos deixamos adentrar o nada nos devolve à nós mesmos” encontra-se o desenho sofisticado de uma ponte com um riacho. Apesar da pouca precisão e do tamanho contido da figura, pode-se facilmente perceber que a água do riacho, assim que passa por baixo da ponte, faz uma curva e sobe a ponte e, ao descer, encontra a água que ainda não passou por baixo do arco. O oficial Esteves, primeiro a perceber o desenho impresso na barriga da morta, ressaltou: “A parada é sinistra, tive que chegar tão perto para ler o que estava escrito que senti o cheiro forte da pele da defunta entrar fundo pelo nariz. A parada é muito sinistra.”.

2

O segundo desenho foi encontrado também por Esteves, mas com certa frustração, por não entender do que se tratava. Sem legendas ou maiores detalhes, ele descobriu cinco ou seis traços (uma análise cuidadosa efetuada pelos estagiários do necrotério determinou na verdade sete) rabiscados na planta do pé esquerdo, formando o desenho rudimentar de uma casinha (opinião de seu colega, o oficial Juca Levis) ou o ideograma chinês para ‘beijo nos rochedos’ (de acordo com um estudo duvidoso de Ezra Pound, citado pelo médico legista).

3

Alguns jornais sugerem que se deve a um impulso necrofílico o descobrimento da terceira figura. O enfermeiro Dênis – o acusado – defende-se dizendo que foi enquanto copiava o primeiro desenho, para fins de documentação do caso, que reparou que, entre os pêlos pubianos da moça, havia “uma área mais escura, como se ela não depilasse aquele pedaço da xereca há muito tempo” (tirado da entrevista cedida a revista veja). Munido de “uma verdadeira curiosidade científica e interesse investigativo” (mesma entrevista), Dênis cortou todos os pêlos da área e copiou para seu caderno as novas evidências. Tratava-se do verso “e havia ali também outras vitrolas, sinais e estrelas.”, extraído de um poema de Gabriel Tupinambá. A caligrafia trabalhada entalhava em letras de fôrma as palavras, num trabalho que certamente tomou muito tempo do desenhista – porque ninguém considera que ela mesma tenha tatuado tudo aquilo. Faltou a Dênis explicar porque ele foi visto no dia seguinte com tinta preta nos lábios.

4

O quarto desenho, um contorno preciso aplicado no bico de um dos seios, criando três círculos circunscritos como num alvo, não foi motivo de polêmica até uma semana antes do enterro: quando o corpo foi lavado, descobriu-se que não só os três círculos negros eram desenhados, como o próprio bico do peito, que também dissolveu na água. O oficial Esteves, a essas alturas apontado com o principal investigador do caso, absteve-se a um comentário: “cacete.”.

5

Num descuido do médico legista – que deixou o corpo cair da mesa de autópsia – descobriu-se na nuca do cadáver o quinto desenho, claramente um mapa. Apesar de não conter os nomes das ruas nem das praias, era óbvio se tratar de um mapa simplificado de quatro ou cinco quadras que vão da visconde de pirajá até o arpoador (uma análise mais aprofundada dos estagiários do necrotério revelou serem na verdade seis quadras). Um traço nítido e preciso marca um caminho que vai (ou vem, não se sabe) de dentro da cidade até as pedras do arpoador. Apesar das quadras na periferia da figura estarem um pouco borradas por causa da cerveja derramada no cadáver na noite da morte, especialistas tentam localizar a outra ponta do caminho.

6

“Os dois primeiros chegarão desapercebidos e chamarão o terceiro. O quarto e o quinto serão acidentes, o sexto (parte borrada do texto), o sétimo – a noite, o (duas linhas de texto ilegível) e é por isso que não se deve ignorar estas palavras: tudo o que há é (ilegível daqui em diante por causa da fatídica cerveja.)” – transcrição oficial. O médico legista ainda discute a possibilidade dessa inscrição, encontrada em espiral em torno de um dos antebraços, ter sido escrita post mortem devido à facilidade com que borrou ao entrar em contato com a bebida. Isso criaria uma janela de aproximadamente três horas entre a queda do corpo e a chegada da polícia em que teria sido pintada a inscrição no braço da falecida.

7

O último desenho, um minúsculo coração desenhado sobre o peito esquerdo da morta, demorou muito a ser encontrado. Graças ao trabalho meticuloso dos estagiários do necrotério, que percorreram o corpo com lentes de aumento, foi possível a identificação da sétima figura, antes entendida como uma pinta qualquer. Apesar de pequena e pouco hermética, foi causadora de grandes polêmicas. “Que pouca vergonha um negócio desses... Não entendi metade dos desenhos, mas esse...uma coisa dessas não pode não... onde já se viu mexer assim com o coração da moça ?” disse uma leitora na enquete realizada por um jornal. Um especialista confirmou que os sete desenhos foram feitos com Nanquim alemão de marca Staedtler, o único que, com o pincel certo, seria capaz de proporcionar a precisão necessária para o desenho. A policia fala agora em assassinato e mantêm na lista de suspeitos Gabriel Tupinambá, autor de uma das inscrições, que foi visto na praia naquela noite e que, de acordo com o cara que derramou a cerveja, foi quem esbarrou nele e também João Marcos Serafim, cujo nome rima com Nanquim.

sexta-feira, maio 19, 2006



O propriamente dito (uma novela em 3 atos)

Terceiro Ato: A Dança de Anúncio dos Escombros Insalúbres


“...Que Sol! Que céu azul!que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!”
( Álvares de Azevedo)


Dizem que de certos lugares não se pode ver a chuva...
Frase esta que eu duvido muito, pois quando chove em algum lugar, todos chovem juntos ,plantas,animais, casas, enfim, tudo chove.
E se há mesmo no mundo da chuva lugar onde não se possa vê-la, esse lugar não era e nunca será a igreja.
A igreja ecoava chuva, transpirando cada vez mais, as gotas mesmo, que fixas em seu nascimento pesavam carrancudas ao se estabacarem em seus degraus de pedra, naquela tarde, tudo era chuva.

Um corpo dono de uma sombra enorme e ensopada, pingava triste desamparada, de joelhos e testa encostada no encosto da cadeira da frente. Se chamava Jacinto, fora demitido por causa de um acidente com uma pessoa pela qual mantinha um sentimento muito forte.
Era dado as filosofias e aos livros nunca a igreja entretanto era um momento de desespero, estômago apertado e labios desidratados.
Neste momento tinha que estar em casa para ver como estava sua mãe que acabava de ser assaltada.

Acima de qualquer outra descrição, era uma igreja carioca e singela, plácida como um refugio da movimentaçao exacerbada da vida no Rio, o Rio, o Rio e seus bordoes, o Rio e seus alçapões, o Rio e seus ladroes. Aigreja era uma boca, Jacinto era saliva, saliva apaixonada e inquieta ... uma baba.

Sim, inesperadamente Jacinto estava apaixonado, apaixonado pela sorte e pela vida, pois se encontrava num momento de extrema perda, tanto de uma quanto d’outra.

Num canto da igreja estavam uma senhora recém enviuvada e seu filho recém orfão que pela animaçao nao pareceia se encaixar nesta descriçao. O pequeno garoto arrancava sons de percussão descabidos apartir dos bancos ocos e lisos da igreja pois já que beneficiados pela acustica da construção, compunham uma musica chuvosa, o som do tédio frustrante da frustação constante do peito de Jacinto, que chegava a ser entediante na opnião das estatuas de madeira que não conseguiam entender Jacinto.

O menino deu um berro e disse que não queria estar ali e a mãe lhe deu um beliscão no braço, entao ele chora.
Jacinto não queria estar ali, sua mente da um berro no escuro, mas como não tem ninguem para lhe beliscar, ele chora...

___ Passos molhados têm um som diferente___

Passos molhados tem um som diferente, e pioram quando apressados, são taps imperfeitos, inacabados e o pior, ecoavam, ecoavam e iam morrer nos ouvidos dos unicos 3 rezantes do interior da boca sacra.

A casa de Deus um doidivana na casa de Deus... normal.
Os passos apressados tinham uma origem como passos sempre têm origens, Tales de Mileto e seus passos fedendo a café e desilusão.
O universitario adentra na igreja e seu peito treme, suas verdades balançam molhadas com a chuva, no meio da confusao de ideias, Tales se decide num surto de incompetencia racional por sacar sua navalia, e sacou.
Olhos com palpebras trêmulas, Tales tinha uma arma, não tinha comando sobre os sentimentos ou da mandibula agitada e infelizmente nem tampouco da sua mulher amada que não sabia seu nome.

Ignorando o fato de ter dinhheiro o suficiente, e tomando por base nada menos do que puro IMPULSO, Tales monta em seus taps imperferfeitos furiuosos. A igreja não se parece com as igrejas de São Paulo, era uma igreja errada. O dia era de chuva ofenciva, não uma garoa de São Paulo, a chuva estava errada. Leila durante toda a sua vida nunca nem soube quem Tales era, mesmo sendo o homem da vida dela, seu principe, porto seguro, a única salvação para a falta de amor, estava errada. Ela envelhecia e ainda assim tentava revidar o encontro com seu amor usando uma navalha! Não poderia estar certo.
O dia estava errado!



Uma navalha no pescoço gordo do gordo ajoelhado ele pede dinheiro, mesmo não querendo ou precisando.
Os dois se levantam vagarosa e cuidadosamenete, a viuva esconde seu filho sobre suas asas, a criança sapateia no ar anarquicamente.

A navalha de Tales é apontada para a abarriga do homenzinho, Tales berra, e bem... a igreja amplifica.

____Jacinto ouviu o sotaque paulista!____

Jacinto ouviu o sotaque paulista, mas se seu dever fosse zelar pela paz da igreja, isso nunca deveria ter acontecido, assim como nunca deveria ter agredido aquele fedelho paulista... e como odiava.

Jacinto se levanta tenso, leva as maos ao bolso retira uma nota de 50 reais e diz:
___ Prefiro morrer do que dar dinheiro a paulista!!

E numa insuficiência de controle demente ele rasga a nota em 6 pedaços, depois em 15, lança aos ceus e ri.

Jacinto era lindo, Jacinto era poeta, Jacinto era poema... e reinava na atmosfera acima de tudo sublime e lunar, que risada gostosa que era a risada do sofredor libertado, era tão boa, que fazia o rir da própria risada... além de preencher o ambiente de uma sensação estranha e um tanto nublada...

Apesar da sensação de Jacinto ser indescritível, a de Tales era o polo oposto então... descritível ; injúria!
Sentia-se picotado.Sentia na sua saliva o sabor de ódio que não daria nunca para se mensurar transformando sua face numa feição bichana e tremelicante.
Tales rugiu como felino que virara e voou como qualquer coisa que voe, guiado pela ponta brilhante da navalha que lamberia a costela sorridente de Jacinto espalhando sangue interrompido nos bancos da igreja ,bancos vermelho-fumegantes...
Mas não foi o que aconteceu, pois o corpo de Tales não parecia saber como sangrar o gordo professor de filosofia.
Mas suas costas pareciam saber como se chocar com a parede e esticar seu braço com navalha e tudo até uma estátua de Santa Cecília, que perde o nariz.

Cecília foi a menina feia que lhe ensinou a dançar quando tinham 10 anos de idade, o passado gostoso dançou em seus olhos com a feiosinha bailarina que era desajeitada e ensinava como uma dama os passos da dança da época, não era bem feia, tinha um nariz que parecia mandar no rosto inteiro e designar para onde a face deveria crescer e era só...não era nenhuma feiura abrupta, e agora, Tales havia arrancado fora o nariz de Cecília...achou engraçado por demais para que contesse o tal silêncio absurdo na igreja e num segundo de bizarra inspiração divina, os dois riram juntos com seus olhos mirando as abóbadas da igreja incompetentes de bom senso.

Era loucura dominando a igreja, a viúva se levanta perplexa, seu filho apesar de parecer muito espantado eu garanto que também gostaria de rir, por uns instantes a mulher quase que embarca na loucura da mesma forma, mas era uma dama e apenas foi embora.

(Silêncio)

Tales:- Está rindo de que?

Jacinto cai de seu alto posto de louco inconsequente ( suas sobrancelhas voltam para o lugar de antes) e volta a ser o mesmo medrota de sempre, sua face era delineada de nanquim borrado que quase se liquefazia, estava apavorado e sob pressão, e sempre que ficava sob pressão desandava a usar palavras difíceis.
Naquele momento ,jacinto tinha apenas um olho ,bem grande no meio da testa, e podia chorar uma quantidade de lágrimas pertinentes a 32 outros olhos de diferentes tamanhos e cores.

Jacinbo;- Bom homem...ria de nós, quero dizer, de mim!...não de vós propriamente dito!

______
_____Propriamente dito!____

Tales havia sido chamado assim, e por nada nesse mundo poderia querer ouvir isto de novo...apertou bem a faca, com tanta força e segurança que ela caiu.
Tão bem quanto ele, que caia ao chão, se inspira em Deus , e chora , borbulha e fervilha ...chora.

E depois de 3 segundos, duas almas fracas e bambas, traídas por sentimentos fortes que nunca antes haviam usado, experimentam como seria ser chuva, eles foram chuva.

Chuva, que corroria a igreja de mágoa calorenta e quase que flicts*.
Como já havia citado , a igreja estava realmente errada, mas talvez naquele momento, mais certa do que jamais fora.

_____Catástrofe_____

Toda a estrutura sacra parece levar uma banda e jogar o peito pra dentro numa autofagia linda !
A igreja se suicidara.
Nem um dos dois viu as rachaduras correndo por todas as paredes, a impressão que os mais superticiosos teriam é de ver os santos explodindo, santa cecília dançando, a dança de anúncio dos escombros insalúbres.

Tudo era escombro incluindo Tales e Jacinto, alguns dizem que a igreja caiu de capenga, outros dizem que foi castigo mas o real motivo, foi que a igreja era um lugar planejado para pessoas elevarem suas almas, mas duas almas chafurdadas de mals momentos choravam juntas, quebrando a atmosfera de paz que mais do que qualquer cimento , mantinha a igreja de pé.

E assim terminou a vida destas almas solitárias tortas e não convexas, dançaram com Santa Cecília, a dança de anúncio dos escombros insalúbres.


Fim.


Flicts* : - Cor inventada por Ziraldo, é uma cor triste e única, é a cor do planeta terra visto da Lua, a cor da Lua vista da lua, e segundo alguns astronomos é a cor do universo.

Fim.

quinta-feira, maio 18, 2006

http://i54.photobucket.com/albums/g97/raqueiroga/headerpequenogregoriovalendo.jpg

Receita para um dálmata

Pegue um papel, ou uma parede, ou algo
que seja quase branco e bem vazio.
Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.

Em cada pata ponha muitas unhas
e em sua boca muitos dentes. (Caso
queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,

ponha um fiapo nervoso: será seu
rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá
fora e espere chover nanquim. Agora

dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,
é dálmata. Se comer (e mugir),
é uma vaca que tens. Tente outra vez.

quarta-feira, maio 17, 2006



SOBRE O PESSOAL DE CADA UM

Nilo derrubou Nanquim em sua camisa nova e cresceu como pessoa.

André quis aperfeiçoar tanto as sombras em Nanquim que estragou tudo.

Natália não acertava nunca a medida de água ou de Nanquim.

Quico ficou viajando nas letras UIM do pote porque o "Nanq", estava virado pro lado.

Ulisses olhava pela janela e pensava no estrago do Nanquim se jogado do nono andar.

Ingrid olhou tanto pros outros que o seu objetivo em Nanquim foi sumindo.

Maurício não foi.



Nunca uma aula de pintura foi tão mal aproveitada.

terça-feira, maio 16, 2006



Lênis de Renoir

Como a maioria das manhãs da zona norte, chovia em Madureira e fazia frio, onze graus marcava o termômetro do calçadão, clima bom para sentar num café na rua Edgard Romero, frente à linha rodoviária, ler as notícias no jornal e sentir-se na Champs-Elisée.

Ele está agasalhado e veste sobretudo impermeável cinza e cachecol preto, calça preta, sapato cinza. Tons neutros. Ele caminha pelo calçadão passando pelas bonboniéres e chama-se Lênis por acidente. Seu nome deveria ser uma homenagem a Vladmir Ilitch Uliánov do subúrbio, mundialmente conhecido como Lênin.Ele é marrom e teve educação católica, mas nem por isso ele deixa de ser boa pessoa.
Hoje é um dia especial para ele.

A Estrada do Portela que dança aos acordes molhados do violinista sem guarda chuva é, hoje, de Lênis Francelino, ele será a personagem principal da próxima obra-prima de Jean-Charles Toufon do subúrbio, mundialmente conhecido como Renoir, que está no quinto andar do Madureira Shopping de onde tem visão panorâmica de toda Estrada do Portela, e está munido de papel Chanson e nanquim.
No momento em que Lênis parar diante do violinista e depositar moedas no chapéu do artista, Jean Charles rabiscará com seu pincel mágico para toda eternidade a existência deste marrom de média estatura, boa pessoa apesar da educação católica que veste neutro e passa pelas bonboniéres em passos largos para a daqui a um centênio. Lênis Francelino Moreira Silva, mundialmente conhecido como o Lênis de Renoir.


*Tudo em itálico está sujeito a erro.
*Tudo em negrito está sujeito a erro.
*Tudo que não for negrito nem itálicotambém está sujeito a erro.

segunda-feira, maio 15, 2006



Aos preguiçosos, pular para o item 02

ESCREVENDO A NANQUIM

Artigo para publicação no jornal “Unirio Plural”, número 02

Raoni Seixas é estudante do oitavo período de Interpretação da Escola de Teatro da UNIRIO.
O espetáculo “Macário, às vezes a vida volta…” estará em cartaz todos os sábados e domingos do mês de junho no Espaço Café Cultural: Rua São Clemente, . Estudantes da UNIRIO com carteirinha pagam meia-entrada.


1. Uma introdução ao modo de produção cênica e à grade curricular da Escola de Teatro da UNIRIO.


Há uma crise no ensino universitário de teatro: a instituição pública de ensino superior não pode oferecer estrutura para o desenvolvimento de diferentes práticas de encenação dentro da faculdade. A escassez do espaço físico, a precária comunicação docente e a má distribuição de recursos colaboram para restringir ainda mais as produções.

Na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – Unirio, a partir do terceiro período, pode-se fazer prova para o curso de direção teatral, que se apresenta como única possibilidade para o estudante que quer orientar a montagem de uma encenação – embora ele mesmo seja orientado por um professor que lhe dirá os objetivos a serem atingidos. O poder de decisão do conteúdo a ser abordado fica a cargo de um professor e de seu aluno-diretor, que deverá escrever o projeto da montagem com estudantes do curso de teoria. Os estudantes que cursam interpretação entrarão no projeto em um momento posterior, como cordas a serem afinadas por um violinista. Para esses aspirantes a atores, há ainda outra opção: fadados a atuar em três montagens na Escola, podem tentar participar de um projeto ligado diretamente a um professor.

Apesar do esforço de alunos do Diretório Acadêmico Oduvaldo Vianna Filho para participarem do processo da reforma curricular dos cursos, organizando seminários e grupos de discussão, no ano passado, pouco se avançou nesse tema: o modelo utilizado no curso de Artes Cênicas é similar ao do estudo da Engenharia ou da Medicina, em que toda a “liberdade” está nas mãos do professor - ele mesmo submetido a um sistema - e pouca ou nenhuma ao alcance do estudante, tutelado do início ao fim. No entanto, cada vez mais, observa-se a formação de grupos de estudantes autônomos que não verticalizam sua produção e não se vinculam à grade curricular, pois essa não prevê este tipo de iniciativa. No ano passado, foram registrados mais de dez grupos. A cooperação do Diretor da Escola provém mais do entendimento da importância desses trabalhos do que da própria organização do currículo do estudante de Artes Cênicas. Se algum artista ligado ao ensino universitário protagoniza papel de destaque no modo de pensar e de fazer arte, o mérito é mais do próprio artista do que da instituição: não é evidente que o ganho à instituição de ensino superior ocorra em virtude da universidade.

Nesse último século, a arte veio questionando seu sentido. A própria hierarquização e verticalização do ensino e da produção não fazem mais sentido. O sujeito da ação pode ser o próprio autor e, consequentemente, a própria obra de arte. O termo ator torna-se, assim, insuficiente para agregar mais este conceito.

Para que um professor torne-se mestre, necessita fazer dissertação; para ser doutor, precisa escrever tese, sem que estes resultados necessariamente sejam transformados em ação: há uma predominância da escrita acadêmica em detrimento do fazer cênico.

O problema que aqui se apresenta em forma micro é uma consequência de uma estrutura maior e mais complexa. Há também outros problemas: o desejo de aceitação, o do não rompimento e o do não questionamento das condições pré-estabelecidas por parte daqueles que já se encontram tão intimamente ligados a elas a ponto de confundir-se com as mesmas.


2. A Companhianômala de Teatro e o espatáculo “Macário, às vezes a vida volta…”

A Companhianômala de Teatro surge na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2004 como uma anomalia: o grupo formado por iniciativa da Anna Beatriz, estudante do curso de teoria que se vinculou à pesquisa do professor Walder, docente deste departamento, por diversos motivos, foge à regra da instituição pública e da grade curricular. Embora ligada à pesquisa de um docente, o objetivo é que todos os integrantes exerçam também o papel de autores.

A pesquisa por dados da estética simbolista nos textos dramatúrgicos do nosso país do século XIX – e que fundamentaram a historiografia teatral brasileira – levou ao mergulho na obra de Álvares de Azevedo. Segundo a crítica especializada, o texto Macário promoveu “representações poéticas cuja intensidade produziu um drama imperfeito ou anômalo para o teatro, mas
ideal como poesia romântica”. ¹

Diz o crítico Antônio Cândido que "a superação do atraso intelectual criado pelo hábito de copiar redutoramente os clássicos seria alcançada somente quando fôssemos capazes de gerar obras de primeira ordem a partir de exemplos nacionais anteriores".² Por isso, a escolha da companhia em trabalhar textos que a crítica considera como dramaturgia brasileira clássica, já que não podem ser considerados cópias dos modelos europeus, pois falham justamente nesse sentido, criando um princîpio de uma temática nacional no âmbito literário e político.

Encenamos um “drama clássico”, a partir da estética contemporânea, em que a compreensão das imagens poéticas da obra e a visão crítica de mundo do ator-performer são necessidades. Ele não realiza uma simples ação, mas acima de tudo a ação performática é um acontecimento, uma façanha. Utilizando-se de sua estética, o performer age em seu próprio nome e como tal dirige a seu público suas idéias e reflexões. O estudo não limita-se ao texto, mas sobre ele fazer uma reflexão crítica e estética da cena e de seu próprio trabalho de performer. A antropologia do trabalho surge como consciência histórica e ponto de partida para criar a encenação do grupo e não como cópia dos cânones europeus ou imitação do teatro brasileiro contemporâneo.

A pretensão da companhia é que não haja uma direção e sim uma orientação: o trabalho do grupo é criar uma unidade de pesquisa estética em que todos devem se colocar em cena. Não existe apenas o personagem, mas o performer dono do seu trabalho, que utiliza o jogo teatral para debater com a platéia. Nesse caso, o conceito ilusionista de imitação do real, que utiliza a cópia para contar uma história, não interessa. O jogo com o acaso, o aqui e agora, em que a cena se faz no instante em que acontece, é um aspecto fundamental à encenação. O ator não se identifica com o personagem a fim de imitá-lo, mas se utiliza dele para questionar o próprio conceito ilusionista. A construção de imagens cênicas simbolistas permite não apenas a compreensão lógica dos acontecimentos, mas busca capturar o espectador no que este guarda de mais profundo. Segundo Freud, “as imagens constituem (...) um meio muito imperfeito de tornar o pensamento consciente, e pode-se dizer que o pensamento visual se aproxima mais dos processos inconscientes que o pensamento verbal e é mais antigo que este, tanto do ponto de vista filogênico quanto ontogênico”³. O resgate do ritual da encenação teatral é ponto fundamental de pesquisa, porém a diferença entre os oficiantes – atores/performers – e o público é tênue: a platéia é convidada a se colocar em cena estabelecendo uma reflexão critica e intelectual na leitura e “deciframento dos signos, a uma reconstituição da fábula e uma comparação de uma realidade representada e de seu próprio universo” 4.

A partir do trabalho da concepção e da percepção da formação da literatura e do teatro brasileiro como entendimento da política, da cultura e da sociedade deste país, o performer estabelece um senso crítico de sua função social e da abordagem artística que quer dar ao seu trabalho. Tendo acumulado esse estudo e diante da dificuldade de ser um artista, marginalizado dentro da própria estrutura de uma Escola de Teatro, não pode se tornar isento da encenação: a obra de arte, dentre outros fatores, NECESSITA refletir sua existência.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS
¹. GAGLIANONE, Anna Beatriz. Macário, às vezes a vida volta… Projeto de encenação do espetáculo.
². CÂNDIDO, Antônio. Literatura e Subdesenvolvimento. In: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática
³ , 4. PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. Ed. Perspectiva

BIBLIOGRAFIA

- SANTIAGO, Silviano. O entre lugar do discurso latino-americano. in Uma Literatura nos Trópicos. São Paulo, Perspectiva, 1978.
- GLUNSBERG, Jorge. A arte da performance. Ed. Perspectiva.
- COHEN, Renato. A performance como linguagem. Ed. Perspectiva
- FREITAS, Almir e LAUB, Michel. Reportagem A universidade brasileira em xeque, revista BRAVO!, sem referência da data de publicação.

domingo, maio 14, 2006




Aconchego do Lar

Maria costumava arrumar a casa aos domingos. Podia acontecer o que fosse, aos domingos ela arrumava a casa. E não era simples arrumação, ela tinha esquema, tinha regras. Arrumar a casa aos domingos era um ritual. Começava lustrando as pratas, em seguida ia para a cozinha. Re-posicionava meticulosamente cada bonequinho de sua coleção. No final do dia passava pano e varria tudo. Antes de dormir, abria uma garrafa de vinho e contemplava solene, a alcançada harmonia de sua bela casinha. Cada posição, cada detalhe era precioso. Sentia como se o aposento lhe agradecesse, e ao deitar, aconchegava melhor em retribuição.

Numa quinta, dia de feira, ia às compras. E ali juntava ordenadamente suas frutas e legumes sem nem passar perto da banca de peixes – odiava o odor. Mas nessa quinta específica algo de diferente a aconteceu. Voltava pra casa e havia derrubado destrambelhada, algumas amoras no chão, e tão cheia de sacolas mal conseguiu abaixar para apanhá-las.

Sem maior percepção, uma mão lhe entra no campo de visão a apanhar frutinhas. Maria, agradecida tenta ajudar, mas derruba ainda mais frutas frescas – e bem baratas – ao chão.

Faltou-lhe respiração. Agora conseguia vislumbrar a face do desconhecido e essa não era a de um transeunte, mas sim o semblante de um herói. Seus olhos brilhavam em petrificação e ela mal conseguia falar. Ele, pelo contrário, tratou de articular por ambos e tratou de acompanhá-la até em casa.

Marcaram um encontro no outro dia, dentro dos horários e esquemas dela, e tiveram uma noite esplendorosa. Beberam vinho e ouviram Cole Porter na casa dele depois de terem ido a um belo restaurante – A CABROCHA – onde provou o mais apetitoso carpaccio de sua vida. Antes que pudesse ficar bêbada, fez com que ele a deixasse em casa e se beijaram fervorosamente na porta. Mal entrada em casa, ela encosta suas costas na gelada face da porta e ali apóia o coração e espera até que ele volte a bater.

Apreensiva, Maria acorda já pensando em como levar sua vida com esse homem junto de si. Não vê um futuro em que possa manter todos os seus horário e regras. Pois sim, bastaria que ele a pedisse e ela deixaria qualquer compromisso para dar-lhe um abraço que fosse. Ah, e que abraço... que braços... seu hálito doce... sua barba... fazer amor com ele seria uma vida. E ainda deitada na cama, antes mesmo de escovar os dentes decidiu, iria dar-se a esse homem hoje mesmo. Bastou que ele ligasse para dar bom dia que ela sugeriu que jantassem juntos, mas teria de ser na sua casa.

Vestiu seu mais belo vestido e foi, sem mesmo perceber que esquecera da hora da novela. Pôs-se em sua casa e teve com ele um jantar romântico, com direito a vê-lo cozinhar. Decorre a noite e eles já se encontram entrelaçados sem saber mais distinguir lençol de pele. Um só ritmo, uma só voz. A casa inteira alcança a mesma temperatura e o próprio raciocínio começa a lhe falhar. Quer gritar - Eu te amo!!! – mas não consegue. No ponto máximo de suas respirações, quando estava a ponto de explodir, sentiu-se tomada por uma sensação inquieta de amargura. Sente-se traída e traidora. Goza, mas grita em angústia. Ele a abraça como quem não quer perder e ela bêbada de dúvidas se deixa dormir.

É domingo. O rapaz acorda e vê-se entrelaçado a um travesseiro. O lençol ao chão. Olha em volta e a impressão é de que qualquer objeto do quarto está a cem metros de distância. Nunca havia se sentido tão apaixonado e agora um vazio maior que sua paixão. Maria pega uma prata e lentamente esfrega um mal vivido trapinho em sua brilhante superfície. Sente-se novamente inteira. Dentro de algo, parte de algo. Dentro de sua casinha que nunca a traiu. Aconchegada, pensa como fará para não encontrar com ele de novo. Sua casa lhe abraça, consoladora.




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