sexta-feira, agosto 11, 2006





do presépio enquanto possibilidade estrutural


Para a minha carmelita




“à noite, a orla de botafogo some
entre o viaduto e as luzes dos carros”
Rafael me disse, mas eu não prestei atenção
por causa do estranho acidente com o cão:

um cara na calçada explicando-se:
“nossa senhora! mas eu nem encostei no seu cachorro.”
“o senhor atropelou ele, moço” ela dizia.
Atrás, três camelôs rindo, cada um com uma
bugiganga diferente na mão. “ai, jesus”
dizia a mulher chorando e se agarrando na bolsa,
já que abraçar o cachorrinho todo ensangüentado
sujaria a sua blusa.

“passou por cima que eu vi” disse uma intrometia.
“fica quieta, sua vaca.” falou o cara.
Rafael checou a hora no celular.
Um rapaz agachou perto da mulher.
“Você quer que eu leve o bicho
pro veterinário?”. Não contive uma risada.
A mulher respondeu. “Está morto, seu burro.”
e olhou enraivecida para o dono do carro –
ele já procurava dentro do porta luvas
o talão de cheques.

Rafael me puxou pelo braço e, enquanto
nos afastávamos, pensei como seria possível
o cão e o homem se parecerem tanto.




O insenso,
o ouro,
e a mirra do meu presépio literário.( Poemas tolos)


Aderência


Eu tinha um peixe laranja;
Rajado de listras abóbora
Morava num aquário laranja;
Com água cor de abóbora.

A noite ele se empretecia,virava negrura por si
Suas listras também eram raios de noite.
Só se empalidecia perante Jacy.
Que reinava no alto com São Jorge no peito e sangrava o céu com seu sangue preto como maculada por foice.

Meu peixe nadava com o fluxo da água
Ficando sempre da cor do seu lar.
Virando lágrima com a minha mágoa.
Nadava lento carregando meu pesado olhar.

Eu tinha este peixe sem escama;
Soltava bolhas/arroto de amor perfeito.
Se pintava de sonho na minha cama.
Ele era a dor dos momentos belos, ele era o prazer do ar rarefeito.

As noites eram quentes, com ares plácidos e frios.
O peixe correndo metia-se logo a se esquentar.
Olhava pro aquário e parecia vazio.
Seu rosto era tão plácido e frio que sumia no ar.

Foi quando que numa tarde,tudo se inverteu
Na água mais preta o peixe era branco.
E eu não conheci o peixe meu.
Minh’alma pendia,meu peito era manco.

Olhei-o com tristeza,meu peixe gostou!
Olhei-o com estranhesa,meu peixe entendeu!
Dei-lhe comida, teu peito murchou!
Dei-lhe amor ,e meu peixe morreu!

Fim.


Ainda sim pensavasse em Milagres


Apostou que todos eram imprestáveis
Virou suas costas e lá foi Milagres... magérrima.
Trazia a peste para as famílias...
Queimava a janta....
Batia nas filhas.
...E ainda sim pensavasse em Milagres.

Morou anos no meio das pessoas,sendo respeitada apenas quando debutara no bairro.
Menina moça, de pais humildes, foi digna até de uns amigáveis tapas nas costas.
Pobre da gente ,criara um bicho tão carrancudo quanto estranho e que agora ninguém mais gosta.
Fedia.
Só quando ia para rua...tudo para que incomodasse...em casa tomava banho...(cantando) ...e ái de quem reclamasse.
...E ainda sim pensavasse em Milagres.

Furava bolas, matava gatos,cuspia fogo,quebrava pratos.
Rasgava cortinas, derretia parafinas, banhava filhos de fumantes com gasolina.
Tinha um velho porão,onde costumava esconder as crianças recém-nascidas.
Tinha sacas e sacas de feijão que cozinhava pra jogar nas moças mais bem vestidas.
Comprava fiado, roubava galinhas,festejava na casa da família de um sujeito recém assasinado.
...E ainda sim pensavasse em Milagres.

Tocou fogo em famílias, cancelou maravilhas, afundou muitas ilhas.
Fez um pai alcoolisar-se, desmoralizou fulanos, matou beutranos, despejou ciclanos.
Atraiu sangue sugas, apontou várias rugas, despejou várias pugas...
Fez o bairro tremer.
Deu nó em rabo de cavalo, deu mordida em vários calos.
Matou joaninhas, deu laxante ás galinhas...Matou Bem-te-vis!!
Fez o bairro a temer.
Vergonha não tinha...ela fez o que quis.
Desfez o bairro.
...E ainda sim pensavasse em Milagres.

A mulher e as verrugas nos dedos,de tanto apontar pras estrelas.
Apontava e já praguejando, invejosa pelo brilho delas.
...E ainda sim pensavasse em Milagres.

Assistia novelas mexicanas.
...E ainda sim pensavasse em Milagres.


Ao tirar Milagres do Bairro, Deus corrigiu o maior dos seus erros...mais acabou por cometer erro maior, em largar Milagres no mundo.

O dia foi lindo,o vento brilhava ...e Milagres ia com a mudança...
Seguia pronde fosse que seguia, era o caminho contrário da esperança!
Seu enorme nariz se afastava, e nossa felicidade se aproximava.
Descobri até que eu tinha nome, e nada parecido com o apelido humilhante que a desgraçada me dava.
Cada pasto era mais pasto, cada lírio era mais flor...
Cada olho era mais brilho,cada brilho era esplendor
Vaca velha,foste embora...era o ar que se respirava...
Tudo tão maravilhoso, até música se cantava.
A atmosfera quão brilhante quanto um belo vaga-lume enamorado pela flor de lis.
E tudo ficara mais adorável e viveu-se para
sempre feliz.


...E ainda sim pensavasse em Milagres... afinal o povo gosta mesmo é de uma desgraça.

Fim.


A brisa que veio depois do vendaval



Foi a brisa que passou logo depois do vendaval
O terrível terror que me depositou no chão
Foi a insignificância de um sussurro leve
Que me ventou para os cumes das mais altas montanhas de rígidas pedras do areal.

Foi o combate com o invisível o que me cansou
Foi Deus, fui eu.
A pupíla que se escancarou...
O mar branco que se fechou...
No momento mais tônico do meu ser, tornei-me apenas algo para ser ventado.
Joelho ralado...

Meus gestos não obedeciam comando algum que viesse de mim.
Minh’alma pensa não, Me’corpo diz sim...
A falta de equilíbrio é constância opressora.
Se a vida é mar, eu ...pobre onda sem vontade ou querer.
Tomado pela emoção, não mais batalhei , nem mais tentei me erguer...

E eu voava atrás do vendaval e agora era com gentileza...
De todos os meus pés, nenhum tocava o chão.
Eu era limpo...eu ventava, atrás do vendaval...sim eu me lembro.
Lembro-me bem daquela brisa, a brisa que veio depois do vendaval.

quinta-feira, agosto 10, 2006


Diário de Melchior

01/08/06

Faz frio por aqui. Há meses que estamos entregues ao descaso, abandonados no porão dessa casa de família. Durante o natal foi aquela festa, todos em volta de gente, nos sentimos parte da casa. Só hoje percebemos como fomos usados. Nós todos, um por um. Por isso, hoje, nesse gélido mês de agosto, o presépio em que vivo é uma fossa. Maria e José não param de discutir relação. Balthazar, muito ansioso, come que nem uma vaca enquanto Gaspar empesteia o ar com seus incensos vagabundos. O menino Jesus, carente que está, apenas faz milagres para chamar atenção.

03/08/06

Nada de novo. Apenas tédio, tédio, tédio. Mentira: à tarde, Gaspar e Balthazar vieram me propor um ménage. Recusei, obviamente. Balthazar voltou a comer seu sanduíche e Gaspar a fabricar miçangas, sua nova ocupação. Não sei como um dia pude me unir a esses dois babacas.

04/08/06

Hoje o menino Jesus me surpreendeu. Durante o lanche, transformou sua água em um liquído rosa e pastoso que ele disse ser danoninho, algo que só seria inventado daqui dois mil anos. Seu pai, enciumado, disse que na idade dele ele costumava fazer muito melhor. Maria duvidou e começou um novo quebra-pau.

07/08/06

O marasmo continua o mesmo. A não ser para Gaspar e Balthazar, que estão se amando todas as noites. E para o menino Jesus, é claro, que hoje de tarde fabricou Chandelle.

10/08/06

Hoje as coisas melhoraram um pouco. Maria me mostrou seu seio esquerdo. José estava nos observando, e, numa crise de ciúmes, deu para Gaspar. Balthazar, enfurecido, deu para o Boi, o que causou a ira do Burro, que relinchava e distribuía coices por todo lado. Um deles atingiu o pastor-flautista, que nada tinha a ver com a história e morreu de coma alcoólico. Jesus apenas batia palmas e comia seu danoninho. Ai, ai. Esse guri ainda vai dar o que falar.

quarta-feira, agosto 09, 2006



FOI MAL O ATRASO, MEU VELOX TAVA FORA DESDE ONTEM

SOBRE UM DIA DIFERENTE


“Acabou a brincadeira!”
Grita Destro Brandindo sua espada dourada.
Antes que José consiga entender o que está acontecendo, Capitão Gancho corta o seu pescoço e parte pra cima do Bebê, mas Bob Esponja lhe dá uma rasteira e esse cai sobre o feno, Pumba e Timão partem pra cima para impedí-lo de se levantar.
Se precipitando ao vacilo do colega, Beebop dá uma cotovelada em Maria e parte pra cima do Berço, mas uma teia vindo de cima da manjedoura puxa o Menino jesus em Segurança.
“Não é assim tão fácil, Leitão de Natal” – Zombou Homem Aranha de cabeça pra baixo com o menino no colo.
“Isso não vai ficar assim! Minha vingança será maligna!”
Berra Esqueleto enquanto comando dúzias de soldadinhos verdes pelo chão, alguns conseguem derrubar uns animais, outros matam pastores que assistiam a tudo com Medo.
“Whoo-hoo-hoo-hoo-hoooooo” – Tigrão aparece pulando e esmagando os soldados verdes, sempre se esquivando dos tiros. Alguns tentam fugir mas são atropelados pelo Batmóvel que é dirigido pelo Samurai Jack. Um barco pirata cheio de seres amarelos minúsculos dispara o canhão e explode o anjo que sobrevoava a guerrilha
Festa no Barco Lego
Tremor. Um gigante se posta no meio daquela situação.
Tudo pára, todos atônitos olham pra cima.

Rafael, quantas vezes eu te disse que presépio não é brinquedo?

terça-feira, agosto 08, 2006



Num deu.
19:22 - Sento no computador pela primeira vez no dia.
Absorvo e tento orientar milhares deinformações ao mesmotempo e uma palavra na cabeça: presépio.
O Manu vai passar hoje lá em casa. Todo dia passa alguém lá em casa.
aquantidadedeinformaçõesaliadaaodiaadiaemumasociedadeanti-socialmefazsurpreendermeaoacharpequenasperolascotidiana.
Ontemumapequenaconversaemmeioacachorrostemvida,deumladoparaooutroaspalavrasvãoseredimensionandoeeuescrevoeprecisotrabalhar.Belaspercepçõeseeucaloaindacaloquerogritar.
Amortetabemproxima.
Contoscontosemaiscontos.
PUTAQUEPARIUNAODÁPRAESCREVERNAODAPRAESCREVERDOIDOINUMDAPRAESCREVER.
dói.
Num deu.

domingo, agosto 06, 2006

Gilberto.

Por enquanto ele só tocava trombone.
Ainda por quantos enquantos?
Roubava namoradas, mas isso importa menos.

Ônibus. Situação normal.

Admirava Simones e Rebecas. Sim. É adorável admirar.
Quando perdido em qualquer fração de tempo não importante, eu refletia. É rotulável refletir.

E então... Quando perdido nas tais frações:

Procurava descobrir qual de todas eram as Simones e as Rebecas. Era realmente bastante complicado, mas valia o esforço.
Estas sempre mais fáceis, as Rebecas, é claro. Rebeca é mais incomum.
Simones, por acaso, eram impossíveis de se apontar. Para vocês. Já para ele ou para mim - um verdadeiro trovador - era drasticamente mais simples. Acertava sempre. As Simones.

Rebecas demoravam mais para aparecer.

Admito que seja transversal. Ou perpendicular, tanto faz.

Traçe aqui uma absissa.

Algumas Yones, em alguns instantes apareciam. Beths, Paulas, Paulinhas, Ninas, Marinas e Josés. Talvez.
As Yones mais. Paulinhas preferiam escutar rádio. Sempre foi assim.
Amélias, Amálias, Déboras loiras, com entradas, veias e unhas... Brunas, Vivianes, Normas, Mornas, Fridas e Carlas. As Carlas sempre andam de ônibus.

Freio.

Qual a razão de um motorista, e seus tanto palavrões, freiar um ônibus amarelo em menos de 3 segundos? O cobrador ri e os pneus agonizam. Ah.

Clara gritou lá no fundo algo parecido com "que absurdo".

Um acidente. O ônibus na rua transversal-perpendicular-sem-açucar parou para jogar conversa fora. Assuntar. Tinha um acidente. Um carro meio torto e um presépio de pessoas meio tristes.

Duas Fernandas e uma Jéssica ergueram-se junto a seus companheiros e puseram o nariz pra fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador e o amigo da Jéssica advertiu:
- No que você vai a fim de ver um acidente, sofre um.
Ele nem escutou. O motorista. Então os passageiros também acharam que seria mais prático abandonar o veículo. Também desci.

Um fusca estilo Nelson Rodrigues e um carro mais caro. Uma gorda vermelha protestava.

Não sei o nome dela. Até hoje.



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