
sem titulo.
para claritinha e slavoj zizek
Foi quando pôs o desodorante na boca que notou que algo estava errado. Tentou recapitular – não lembrava de nada do que fizera antes de colocar o desodorante na língua. O que conseguiu perceber é que não foi um gesto impensado, como se tivesse ido na direção da pasta de dente e, sem querer, trocado pelo desodorante. Não. Ele pegou o desodorante e passou na língua de propósito.
Sorriu para o espelho, tentado voltar ao fluxo diário de acontecimentos, mas o que de fato aconteceu foi perceber nesse sorriso algo totalmente além do seu controle. Virou de costas para o espelho – isso também, completamente programado. Sentiu-se estranhamente nervoso, um zumbido irritante começou no ouvido e logo tomou conta dos seus pensamentos. Deu um passo para frente e gelou. Estava imerso num infinito dejà vu, no qual não era ele quem observara a repetição, mas outra pessoa. Ele era o personagem no texto de alguém.
Impelido por alguma coisa, voltou ao quarto. Percebia que cada poro do seu corpo era guiado por uma voz. Outras coisas a sua volta pareciam imunes a isso: o abajur, por exemplo – pensando bem, aquele abajur não existia a dez segundos.
Sentou na cama ainda de cueca. Levantou e rodopiou como uma bailarina. Relaxava seu corpo cada vez mais e, cada vez mais, percebia ser capaz de identificar essa partitura mística que seguia. Colocou um dedo no nariz e foi até a janela, mantendo o dedo no nariz. Toda a sua existência parecia se resumir à ser um homem, de cueca, com o dedo no nariz, encostado na janela, perto de um abajur.
Olhando pela janela viu as janelas de tantos outros apartamentos. Tentou se concentrar: talvez conseguisse prestar atenção no que quer que seja que está guiando seus movimentos (não estariam seus pensamentos e questionamentos também sendo guiados por essas palavras?). Antes que pudesse tirar qualquer conclusão, sentiu um grito subindo-lhe a garganta, como uma bolha ou um anti-peido. Foi rir da palavra anti-peido e acabou deixando escapar o grito.
“Sarapateeeeeellllll!!!!!!!!”
A palavra ecoou pelo vão que separava sua janela das janelas do prédio da frente. Quis pensar que estava possuído por alguma força demoníaca que o obrigava a recitar versos em aramaico ou alguma língua desconhecida. Quem saberia o que sarapatel significa? Vai ver deus tomou posse de seu corpo naquela manhã para que espalhasse sua mensagem por todo globo. Sentiu outro grito vindo – dessa vez não lutou.
“SARAPATELLLLLLL!!!!!!!!!”
Gritou com todas as forças, ficando até na ponta dos pés – queria ter gritado gloria à deus, mas, sendo sarapatel a palavra que saiu, colocou ao menos a entonação que lhe agradava (não seria essa entonação tamb...ele já percebeu que a entonação não é dele.). Ficou tonto e voltou a sentar-se na cama.
Pensou que um dos motivos pelos quais não se sentia senhor de suas ações era que tudo parecia estar no pretérito. Tudo parecia ao invés de tudo parece. Jogou a cabeça contra o travesseiro. Tudo parecia escuro e silencioso.
Um barulho estrondoso o trouxe de volta. Não demorou a identificar que se tratava da campainha. Levantou e atravessou sem maiores dificuldades a distância entre o quarto e a porta da frente.
“O seu sarapatel.” Disse o homem vestido de uniforme azul, com quepe vermelho.
O protagonista continuou olhando para o entregador de sarapatel parado ali.
“O seu sarapatel, moço” falou, enquanto abria o embrulho e mostrava a tigela de plástico coberta com papel alumínio. Tirou o papel de cima da comida e, enquanto o alimento era inspecionado, o entregador reparou que o cara tava só de cueca.
O protagonista continuou a olhar com suspeita – achava difícil que a palavra pronunciada com tanto esmero na janela designasse tal gororoba (essa sim própria para aquela mistureba (essa sim própria para aquela coisa (essa sim própria pra qualquer coisa))). Disse finalmente:
“Isso ai é meu?”
O entregador parou de olhar para a cueca e disse:
“Mas é claro, o senhor que pediu. São quinze reais, por favor. Aqui o seu recibo...”
“Deve haver um engano, não pedi nada.”
“O senhor tá de sacanagem comigo, né...são quinze reais, por favor.”
O homem continuou parado, inspecionando agora a cara do entregador. Ele parecia confuso também.
“Senhor, aqui o seu recibo, ó...tá aqui...quinze reais.”
Nenhuma resposta.
“Senhor?”
O homem sentiu que seus olhos se encontrariam com os olhos do entregador (e se encontraram).
“Você não tá percebendo?”
O entregador de sarapatel fez cara de quem não entendeu. O homem sorriu e, olhando para cima, quase lendo um texto que passava na sua frente (ou em cima dele, ou nele, sabe se lá...) continuou:
“Você não está percebendo o que esta acontecendo? Não esta sentindo como tudo...”
Foi interrompido pelo entregador:
“O senhor me faca o favor, né. Não quero saber o que está acontecendo...você...você vem ate a porta me receber assim de cueca, me joga esse papo aí de ‘o que está acontecendo’...coé, camarada? Tá me estranhando? Tá querendo confusão? O teu sarapatel foi quinze reais. Agora me faça o favor de pagar que eu quero ir embora daqui...”
Virou-se e olhou para a sala. Nada era novo, mas nada era familiar o suficiente para que pudesse reconhecer onde que se esconderiam os 15 reais para pagar pelo sarapatel. Andou em linha reta até o meio do cômodo, deu umas voltas sobre o seu eixo, tentando ver se era obviamente guiado para algum lugar – nada. Tentou relaxar um pouco (apesar do olhar arregalado do entregador de sarapatel) e deixou-se levar, guiando-se pelo mapa que eram seus passos. Esbarrou na penteadeira: abriu a primeira gaveta, pegou uma caixinha que estava no canto, de dentro dela tirou um saquinho de veludo azul e dali de dentro tirou duas notas de dez.
“Aqui.” Falou satisfeito.
“Tó o teu troco e a tua comida.” O entregador andou rapidamente até o elevador. “Viado...” murmurou antes de sumir.
O homem sabia que era hora de fechar a porta e fechou.
ESTUDO PARA FINAL ALTERNATIVO
Sentado na mesa, despeja todo o conteúdo da tigela numa tigela maior e, quando vai jogar o papel alumínio fora, encontra, grudado, um bilhete em que estava escrito em letras pretas contra o fundo cinza:
“caro homem,
aqui é o escritor. foi mal aí por você ter que existir, andar de cueca na frente de um entregador, passar desodorante na língua e etc. é eu precisava que alguém dissesse sarapatel pra mim. foi mal mesmo. depois te reembolso os quinze contos. valeu.”