
dona jandira.
Eu li em alguma revista, não lembro onde, que tinha esse cara que tirava fotos que simulavam o espaço sideral usando somente café preto, açúcar e adoçante. Não. Foi na televisão que eu vi. De qualquer forma, o fato é que a dona Jandira tinha deixado o meu café na mesa de cabeceira já tinha um bom tempo. Quando eu consegui sair debaixo das cobertas, o café não só estava frio, como tinha uma galáxia flutuando na superfície. Café frio é uma merda.
Eu canso de reclamar com a dona Jandira – Não adianta levar o meu café na cama: nesse friozinho gostoso eu não acordo fácil de jeito nenhum. Mas entra tudo por um ouvido e sai pelo outro. Pelo menos ela fez o favor de deixar a pá no meu quarto também. Eu adoro me vestir devagar quando estou com preguiça, essa sensação de que os músculos estão cansados de dormir é muito boa. Em todo caso, eu quis evitar mais aporrinhação e desci direto pro parque. Cheguei na portaria e vi que tinha esquecido a chave da porta da frente. Tive que subir tudo de novo. Eu não consigo me acostumar com não ter mais porteiro. O seu Tiago era gente fina, sempre enchia o pneu da minha bicicleta e tudo mais. Agora essa parada de ter que andar com a chave do apartamento, da garagem, da porta da frente e etc está me deixando louco. Outro dia, eu vi o meu vizinho tentando consertar o botão de abrir a garagem, foi muito engraçado, gordão do jeito que ele é, tendo que abaixar pra abrir a caixinha com a fiarada.
Desci dessa vez de escada, pra já dar uma esquentada antes do jogo. Fui batendo a pá nos degraus fazendo um barulho do caralho. O gordão gritou alguma coisa lá de cima, mas quem se importa. Atravessei a rua num pique, mas levei um susto porque tomei um estabaco meio ridiculo antes de chegar na calçada do outro lado. Numa rua movimentada como a Rui Barbosa, não ter sido atropelado por um táxi ou um ônibus foi muita sorte, se bem que o trânsito no Rio está bem melhor agora.
Já tinha uma galera no parque, todo mundo tirando neve de cima da quadra. Nenhum dos meus amigos mais próximos tinha chegado, então eu fiquei quieto na minha, tirando o gelo das traves dos gols e rindo de uns três caras que estavam escrevendo ‘deco viado’ com mijo na neve.
O jogo em si foi maneiro, a merda foi que neguinho estava cansando muito rápido e não tinha gente o suficiente pra montar outro time na de fora. Por mim é tranqüilo, eu tinha um compromisso na hora do almoço e ia sair mais cedo de qualquer forma. Aliás, eu estou pensando em comprar uma bola eu mesmo: está ficando meio chato ter que esperar pelo Rafael, que sempre chega tarde, pra poder começar o futebol. Se ficar todo mundo sentado lá esperando ele chegar e vendo a quadra encher de neve de novo – como acontece volta e meia – é claro que ninguém vai conseguir correr na hora de jogar.
Eu fui falando sobre isso com ele no táxi até a Gávea e o Rafa sugeriu de todo mundo fazer uma vaquinha para comprar uma bola em conjunto, o que é obviamente uma idéia bem menos imbecil do que comprar a bola eu mesmo. Quando a gente tava passando pela Lagoa, ele me perguntou de como andavam as coisas com a Gabi e eu olhei pela janela e dei um daqueles suspiros clássicos de quem está com muita saudade. A Lagoa embaixo de toda aquela neve parecia um tampo de privada levantado, principalmente nas primeiras fotos que saíram no jornal, quando tudo começou.
Anteontem, na tv, eu vi uma entrevista com a Rosinha. Ela lamentava as mortes, mas se dizia entusiasmada com as baixas nos índices de criminalidade e de pobreza no Rio. “Foi obra de Deus, será melhor assim” ela dizia. De fato, Ipanema nunca esteve tão bonita – São Conrado agora se resume aos três ou quatro complexos de prédios que já estavam lá e só. Não existem mais as luzes da Rocinha à noite. O Rafael me contou que vão abrir uma pista de ski por ali.
Não tem mais a presença imponente do Vidigal pra quem anda na Niemeyer. A cidade está limpa e quieta. O Cristo ganhou umas asas de gelo.
Deixei ele na Gávea, ali onde era a PUC e continuei viagem pra Barra. Me falaram que no comecinho da praia, ainda no Pepê, a nevasca veio de tal maneira, que criou uma rampa do topo dos prédios da orla até o mar.