sábado, julho 29, 2006



Gelado. Estranho. Outro. Antonio não se sentiria ele se não fosse pelo chapéu que o apertava o raciocínio. Pelo chapéu, somente, se reconhecia. Adentrara, mentiroso, naquela sala sem pretensão alguma.

Uma vez perguntou: Amor, a gente guarda? – Nunca obteve resposta suficiente. Nem de si, nem dos outros.

Não houve chance, tempo, ar. Mal chegou e já foi tomado inteiramente pela surpresa, pela incógnita, pelo amor. Como se um pedaço de si se tivesse prendido na roupa dela e arrebentado na primeira puxada evasiva. Como se o iglu tivesse perdido o teto em súbito. Tomado por completo pelo frio.

Ela nem sabe. O quanto foi, o quanto está sendo amada naquele exato instante. Chega a doer no coração de um rapaz que estava ali perto, alheio a isso tudo. Aperta-se o coração de quase todos no lugar, sem nem razão de ser.

Antonio, sem saber o que fazer, estarrecido pela surpresa mais esperada, pega na mão dela e diz qualquer coisa irrelevante. Supondo que qualquer que fosse a palavra, o amor encontraria caminho para revelar-se dentro de seu objeto de suor.

Ela nem sabe. Agradece como quem diz foda-se e volta à sua existência. Deixando um homem morto, em pé, a olhar queimando para ela.

Antonio não a amava mais. A muito que não amava. Esse era um tipo de agonia que ele não mais queria, não mais suportava. Mas o olhar daquela moça, sua beleza incomparável, seu ar, fizeram com que todos os anos de recuperação extraviassem de seu histórico, restando somente um homem sujo, triste, apaixonado. Sem reação.

Ela olha pra traz, sorri sendo educada. Seu sorriso ecoa, vibra, abre o céu.

Antonio estende a mão como quem diz, não vai. Em sua mão cai um único floco de neve, vermelho. Olha para cima e não vê mais céu. Um imenso lenço de seda vermelho se transborda sobre sua cabeça, derramando sutilmente suas suaves gotas de vermelhidão cristalizada.

A neve vermelha desenha um circulo em volta de Antonio que só sabe olhar para cima. Chora. Não há mais ninguém à sua volta.

Ela não existe mais.

Só restou seu amor por ela, que é infindável. E pequenos flocos de neve vermelha.

sexta-feira, julho 28, 2006






dona jandira.


Eu li em alguma revista, não lembro onde, que tinha esse cara que tirava fotos que simulavam o espaço sideral usando somente café preto, açúcar e adoçante. Não. Foi na televisão que eu vi. De qualquer forma, o fato é que a dona Jandira tinha deixado o meu café na mesa de cabeceira já tinha um bom tempo. Quando eu consegui sair debaixo das cobertas, o café não só estava frio, como tinha uma galáxia flutuando na superfície. Café frio é uma merda.

Eu canso de reclamar com a dona Jandira – Não adianta levar o meu café na cama: nesse friozinho gostoso eu não acordo fácil de jeito nenhum. Mas entra tudo por um ouvido e sai pelo outro. Pelo menos ela fez o favor de deixar a pá no meu quarto também. Eu adoro me vestir devagar quando estou com preguiça, essa sensação de que os músculos estão cansados de dormir é muito boa. Em todo caso, eu quis evitar mais aporrinhação e desci direto pro parque. Cheguei na portaria e vi que tinha esquecido a chave da porta da frente. Tive que subir tudo de novo. Eu não consigo me acostumar com não ter mais porteiro. O seu Tiago era gente fina, sempre enchia o pneu da minha bicicleta e tudo mais. Agora essa parada de ter que andar com a chave do apartamento, da garagem, da porta da frente e etc está me deixando louco. Outro dia, eu vi o meu vizinho tentando consertar o botão de abrir a garagem, foi muito engraçado, gordão do jeito que ele é, tendo que abaixar pra abrir a caixinha com a fiarada.

Desci dessa vez de escada, pra já dar uma esquentada antes do jogo. Fui batendo a pá nos degraus fazendo um barulho do caralho. O gordão gritou alguma coisa lá de cima, mas quem se importa. Atravessei a rua num pique, mas levei um susto porque tomei um estabaco meio ridiculo antes de chegar na calçada do outro lado. Numa rua movimentada como a Rui Barbosa, não ter sido atropelado por um táxi ou um ônibus foi muita sorte, se bem que o trânsito no Rio está bem melhor agora.

Já tinha uma galera no parque, todo mundo tirando neve de cima da quadra. Nenhum dos meus amigos mais próximos tinha chegado, então eu fiquei quieto na minha, tirando o gelo das traves dos gols e rindo de uns três caras que estavam escrevendo ‘deco viado’ com mijo na neve.

O jogo em si foi maneiro, a merda foi que neguinho estava cansando muito rápido e não tinha gente o suficiente pra montar outro time na de fora. Por mim é tranqüilo, eu tinha um compromisso na hora do almoço e ia sair mais cedo de qualquer forma. Aliás, eu estou pensando em comprar uma bola eu mesmo: está ficando meio chato ter que esperar pelo Rafael, que sempre chega tarde, pra poder começar o futebol. Se ficar todo mundo sentado lá esperando ele chegar e vendo a quadra encher de neve de novo – como acontece volta e meia – é claro que ninguém vai conseguir correr na hora de jogar.

Eu fui falando sobre isso com ele no táxi até a Gávea e o Rafa sugeriu de todo mundo fazer uma vaquinha para comprar uma bola em conjunto, o que é obviamente uma idéia bem menos imbecil do que comprar a bola eu mesmo. Quando a gente tava passando pela Lagoa, ele me perguntou de como andavam as coisas com a Gabi e eu olhei pela janela e dei um daqueles suspiros clássicos de quem está com muita saudade. A Lagoa embaixo de toda aquela neve parecia um tampo de privada levantado, principalmente nas primeiras fotos que saíram no jornal, quando tudo começou.

Anteontem, na tv, eu vi uma entrevista com a Rosinha. Ela lamentava as mortes, mas se dizia entusiasmada com as baixas nos índices de criminalidade e de pobreza no Rio. “Foi obra de Deus, será melhor assim” ela dizia. De fato, Ipanema nunca esteve tão bonita – São Conrado agora se resume aos três ou quatro complexos de prédios que já estavam lá e só. Não existem mais as luzes da Rocinha à noite. O Rafael me contou que vão abrir uma pista de ski por ali.

Não tem mais a presença imponente do Vidigal pra quem anda na Niemeyer. A cidade está limpa e quieta. O Cristo ganhou umas asas de gelo.

Deixei ele na Gávea, ali onde era a PUC e continuei viagem pra Barra. Me falaram que no comecinho da praia, ainda no Pepê, a nevasca veio de tal maneira, que criou uma rampa do topo dos prédios da orla até o mar.




O vendedor de Caranguejo


Domingo calmo, um simpático café numa das ruas que perpendiculavam a Jardm Botânico.
Para variar eu não tinha caneta.
Um grupo de Pessoas almoçavam, e mais uma vez eu havia perdido a manhã e participava como um entruso atrasado no dia dos outros.

O grupo de pessoas parecia animado,muito provavelmente haviam marcado este confortável e apetitoso encontro já a determindo tempo.
Riam, como riam e citavam a vida tanto a deles mesmos quanto a dos outros.Entre alguns pedidos o único homem, que havia chegado muito depois de que todos já haviam começado a comer,diz ter assistido o novo filme do Johny Depp, alertando não ser o dos piratas, mas aquele outro...
Este sujeito tinha barba, e por entre a barba saia um carregado sotaque espanhol e usando ele, começou a dissertar sobre o filme , espalhando e estraçalhando a atenção de todos os almoçantes como em caquinhos por todo o bairro.
Cheguei a dar um empulso de riso ao notar as falsas expressões de concentração que todos tentavam ostentar para o rapaz animado e falador, que se divertiria contando sobre o filme mesmo se estivesse falando sozinho.

Com frequência começavam novas histórias , no empenho de não deixar a mesa silênciosa
E a partir daí: “Socialmente Desconfortável”.
Dor esta que não me dói tanto...nunca vi o menor mal em ficar entre amigos silênciosamente, creio que os verdadeiros amigos são aqueles os quais se pode fazer tudo junto ,até mesmo ficar em silêncio por que não?
Por isso mesmo, se os leitores que estão lendo forem realmente amigos não se encomodarão com a pausa que eu vou estabelecer abaixo...

( silêncio)






Obrigado amigos, perdoem-me colegas e outras classes de pessoas que se sentiram incomodadas.
Retomando, eu tomava o meu café com um bastão de canela e com o exagero no açúcar que é peculiar a minha personalidade, pedi uma caneta emprestada a garçonete, que talvez tenha pensado em me dar um grande sorriso, mas não o deu.
Era uma morena realmente geitosa e enquanto eu a admirava, o aspecto pacato da tarde se mantinha, mesmo sendo em uma daquelas horas em que normalmente os aspectos pacatos se esvaem...

Senta-se numa mesa ao meu lado, dois sujeitos e um deles diz ter um amigo belga em tom de início de conversa.
O sujeito do sotaque diz saber uma piada clássica, a palavra exata que ele usou foi: Antológica, quando alguém qualifica a piada com um adjetivo desses quase nunca sabe contá-la, e se souber duvido que tenha muita graça...
Sem que ninguém peça ,ele se põe a contar a piada.
Não quis ouvir.

O amigo do belga pede uma cerveja holandesa , seu companheiro, o que ficou sabendo que iria começar a conversar com um amigo de um belga, talvez tentando não ficar para trás anuncia que tem um irmão morando na holanda e que está a ponto de ter um sobrinho holandês,mesmo sendo mentira os dois comemoram e brindam ao nascimento da criança com cerveja holandesa.

Junto com o calor , não escaldante mas até confortável do Sol, chegava pela calçada em frente ao café um sujeito com roupas esfarrapadas, barba que mais parecia o recheio de um travesseiro estremamente velho e fedido, mas mantendo o peito estufado e apoiado em seus ombros um longo pedaço de madeira com caranguejos pendurados, as fêmeas pela garra esquerda e os machos pela garra direita, o peito era inflado ,pois tinha que dizer bem alto a que vinha...vinha vender os caranguejos.
E dizia isto cada vez mais alto com os pulmões vibrantes, oferecendo-os a quem se interessasse.
O vendedor de caranguejos.
Os caranguejos e o vendeor.
Seus calçados eram sandalhas, se apresentava como Jacksô das Neve.
Mas não recentemente, pois fazia tempo que não precisava dizer seu nome para ninguém, com o mundo sua relação era extremamente profissional...
A ninguém que almoçava, era necessário conhecer Jacksô das Neve...muito menos o vendedor de caranguejos...

A conversa se mantinha, até que de repente, o vendedor parou-se, repousou seus caranguejos na calçada, adentrou o café e com lentos passos, se sentou na mesa da minha frente...silêncio geral.
A geitosa garçonete foi um pouco cabreira falar ao senhor...não sabia bem se o pedia para sair ou não...

- O senhor ...vai...pedir alguma coisa?

-Um Petit Gateau, pra dois Por favor.( abrindo um grande sorriso)

A garçonete sem graça pergunta se ele está esperando por alguém...e ele apenas continua exibindo seus dentes amarelados.
Durante aqueles momentos, não importava mais a ninguém ter amigos na Europa ou o que achavam dos filmes do Johny Depp...todas as mesas tentavam parecer que não, mas se concentravam no vendedor de caranguejos.

A garçonete chega.

- Agora, sente-se Léia.

A mulher fez uma expressão esverdeantemente estranha.
E...se senta mesmo.

O homem começa uma conversa bem gesticulante e intensa mas quase silênciosa aos meus ouvidos...e depois de certo tempo eu aposto que a garçonete também gostaria que fosse silênciosa aos seus ouvidos,pois ela se põe a chorar com desespero digno de pena... e ele não para de falar um só segundo, as outras pessoas tentavam continuar a tarde fingindo que aquilo não enterferiria em nada.
Foi extamente quando, a mulher soltou um grito no espaço.

-Não! Eu não quero voltar...minha vida não pode ser só isso!

- Sim, sua vida é só isso!

Ele esbraveja.


Da rua, surge um grupo de pessoas de ternos acinzentados, homens e mulheres, com o mesmo brilho estranho no olho que a garçonete sempre teve, e vão andando para dentro do café, eu me tremo um pouco e agarro com força o meu caderno,a mulher os encara e abaixa a cabeça respirando fundo, O vendedor de caranguejos, pega o pedaço de madeira agora vazio que havia deixado na calçada, levanta-o como um cajado , e cada uma dessas pessoas põe suas mãos ( os homens as direitas e as mulheres as esquerdas), o vendedor, olha para a garçonete que com olhos de compreesão levanta sua mão esquerda até o pedaço de madeira, o sujeito leva-o até acima do ombro com todos segurando a parte de trás do pau e se vai a passos lentos acompanhados por vários outros passos incluindo a garçonete que largou seu avental no chão do café, todos juntos numa peculias procissão.

Assim que termineir de escrever a história toda em meu caderno, eu fui embora.

Eu roubei a caneta.

terça-feira, julho 25, 2006



Imaginei uma peça de dois atos e meio. Três adolescentes: Piro, Raco e Flor.

Piro representa a 'possibilidade' nietzscheana.
Raco representa a admissão de fracasso schopenhauriana.
Flor um delírio qualquer de Rimbaud.

Os três moram sozinhos em uma casa no meio de uma ferrovia.
Pra ser exato, a casa está exatamente situada em cima de uma linha ferroviária.
Eles sabem que a ferrovia está desativada.

Não vivem os conflitos da idade. O objetivo dos três é a "morte".
Todos os três são propositalmente e forçadamente loucos.
Conversam sobre o pó, as cadeiras e as janelas. Nunca saem de casa. Esse é o espetáculo.

PRIMEIRO ATO
Piro leva todos a pensar em alguma possibilidade de sucesso. Pausas e mais pausas.
O ato termina com Raco transando com Flor em cima da mesa.

SEGUNDO ATO
Raco atesta o fracasso de qualquer alternativa pensada ou não pensada. Juntos chegam à conclusão-suicída e procuram achar uma maneira perfeita para se suicidarem.
Veneno? Corda? Tiro? Quedas?
Não concordam com nada disso e parecem extremamente desanimados.

SEGUNDO ATO E MEIO
Tudo está mudado. Flor chama os dois para almoçar, pois afinal, já são 12:40h em ponto! Hora de almoçar! “Lavem as mãos, meninos... Hoje comeremos arroz, feijão e batatas assadas!”.
Então quando começam a conversar sobre o tempo.
"Será que vai chover hoje?", "Essas batatas estão maravilhosas..."

TERCEIRO ATO
O pano cai.

OBSERVAÇÕES
Os dois primeiros atos são bem escuros, secos. Algo entre o naturalismo do Plínio Marcos e o realismo-absurdo de Beckett. Já o último bem Ionesco.
A intenção-personagem está muito bem definida e coesa: os elementos naturalista-sujos, a ferrovia e o que cada personagem risca.
“A cor é meio fedida”.
Os personagens tropeçam nas personalidades propositalmente por meio de diálogos. Sobre a intenção perspectiva-ruína-delírio.
Tudo isso dará um compasso extra para o texto recheando o esqueleto de coisas vazias mais presentes com o resto.

Não está bom. Talvez uma ferrovia com neve. Neve é sempre bom.
Que modo de pensar. Talvez a batata assada.

segunda-feira, julho 24, 2006



No túmulo do artista jovem que morreu:

"Não deu".

Veio melhor sugestão:

"Não daria".


Web Counter